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“O Chega torna-se um partido apetecível para o PSD fazer entendimentos” – Fernando Rosas

Jornal 2 © RTP2
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Em entrevista ao Jornal 2 da RTP2, Fernando Rosas, historiador e um histórico do Bloco de Esquerda fez uma análise dos resultados das Eleições Presidenciais do passado domingo e das sequelas da reconfiguração política à direita.

Diz Fernando Rosas que “os resultados de domingo só são uma vitória do presidente eleito e do Partido Socialista de António Costa”.

Para o historiador que também foi candidato a Belém em 2001, “toda a esquerda teve maus resultados.” Começa por dizer que “a candidata Ana Gomes ficou muita aquém dos resultados de há cinco anos de António Nóvoa e fez uma campanha muito para dentro do Partido Socialista, o que significa que as pessoas que votaram nela, é um voto sem continuidade, porque ela própria não é um partido e parece que não vai constituir nenhum.”

Para Fernando Rosas “a esquerda do Partido Socialista sai enfraquecido com este resultado de 13%”

“Sondagem promovida pela RTP com quase cinco mil entrevistas feita pela Universidade Católica que nos dá uma ideia daqueles votos que votando nas presidenciais indicavam como votariam nas legislativas.”

Na análise da esquerda política, o historiador diz que Marisa Matias não conseguiu segurar os votos do Bloco de Esquerda: “fugiram quer para Ana Gomes quer para o próprio presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, mas esses eleitores que nas Presidenciais votam dessa maneira mostram, na sondagem que citei, regressar ao voto no Bloco de Esquerda praticamente em termos idênticos àqueles que se registaram nas últimas Eleições Legislativas”

Já no que toca ao candidato do PCP, João Ferreira, diz Fernando Rosas que teve “uma melhor percentagem que o pior resultado do PCP em Presidenciais com Edgar Silva, há cinco anos, ainda que abaixo no número de votos. Manter esse nível é um nível já muito baixo e portanto também não lhe correu muito bem.”

“O CDS despeja-se e anula-se votando quer na Iniciativa Liberal quer no candidato do Chega”

À direita, com André Ventura a ganhar terreno, diz Rosas que “o voto no Chega [André Ventura] é um voto que reúne algum voto de protesto, mas nesta conjuntura de eleições reúne muito voto quer do PSD quer do CDS. O CDS despeja-se e anula-se votando quer na Iniciativa Liberal quer no candidato do Chega. E isso põe um problema interessante para o que vem a seguir na vida política: como rouba uma parte significativa de votos ao PSD, coloca o PSD provavelmente perante uma necessidade, que não se lhe resistirá, de fazer entendimentos com o Chega à direita, para tentar buscar uma futura maioria.”

Adianta ainda que na sondagem que citou “não dão maioria à direita toda somada: todos juntos não têm 50%, portanto, o problema mantém-se. O Chega com o resultado que tem à custa em parte dos votos do PSD e do CDS, torna-se um partido que é apetecível para o PSD poder fazer entendimentos com ele, sendo que ao fazê-lo liberta espaço ao centro onde há alguma parte do eleitorado do PSD que não concorda com isso. Ao libertar esse espaço convida, de alguma maneira, o Partido Socialista a ir buscá-lo. A centralizar-se na escala política.”

PSD e CDS vão assinar acordo que exclui o Chega de coligações 

Recorde-se que, como noticiado pelo Semanário V, os presidentes do PSD e do CDS-PP anunciaram esta quarta-feira que irão assinar até meio de fevereiro um acordo-quadro para as autárquicas que exclui a possibilidade de coligações com o Chega.

No final de uma reunião de cerca de hora e meia, Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos não quiseram referir-se nem a municípios concretos nem balizaram o número de coligações pré-eleitorais que esperam alcançar, que estará dependente da vontade das estruturas locais e da aceitação das direções nacionais.

“Este acordo não vai dizer que só há coligações com o CDS e com mais ninguém. Não haverá [é] com o Chega”

“Este acordo não vai dizer que só há coligações com o CDS e com mais ninguém (…) A única questão que estamos de acordo é que não haverá com o Chega, mas tirando o Chega logo se verá”, explicou Rui Rio, salientando que “há muito” que rejeitou essa hipótese e que esta posição nada tem a ver com os resultados das presidenciais.

Questionado sobre a razão dessa exclusão do partido liderado por André Ventura, Rio respondeu: “O Chega para ter conversas com o PSD tem de se moderar, o Chega não se tem moderado, não há conversa nenhuma”.

Na mesma linha, também Francisco Rodrigues dos Santos disse já ter sido “perentório” que “não haverá coligações com o Chega, nem em autárquicas nem em legislativas”.

André Ventura manda “recado” a Rui Rio

André Ventura deixou um recado, esta terça-feira, a Rui Rio, apontando que a direita tem de perceber que está no mau caminho.

“Ou o doutor Rui Rio acorda ou nós um dia acordamos com uma espécie de ‘mexicanização’ do regime, em que o PS manda em tudo e não somos capazes de fazer nada. E é isso que me preocupa neste momento”, disse o deputado único do Chega, depois da reunião com o Presidente da República sobre a renovação do estado de emergência, que decorreu por videoconferência.

No rescaldo dos resultados das Eleições Presidenciais, no passado domingo Rui Rio grande parte do discurso a falar sobre o partido de André Ventura. “Chamo a atenção que o André Ventura [apoiado pelo Chega] é o segundo classificado no Alentejo todo”, disse o líder do PSD, enaltecendo um resultado que o próprio partido não consegue. “Em Setúbal, o PSD nunca, desde o 25 de Abril, conseguiu uma câmara municipal. Uma! Isto é que é a análise que é preciso ver.”

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