Vila Verde

Padre Sandro de costas voltadas à Eutanásia: “precisamos de Humanidade de grupo”

(c) Direitos reservados
Partilhe esta notícia!

O parlamento em votação final global votou a despenalização da morte medicamente assistida, com 136 votos a favor. A lei prevê, nomeadamente, que só podem pedir a morte medicamente assistida, através de um médico, pessoas maiores de 18 anos, sem problemas ou doenças mentais, em situação de sofrimento e com doença incurável, tal como noticiou o Semanário V. Se o Presidente promulgar a lei, Portugal será o quarto país na Europa, e o sétimo no mundo, a despenalizar a eutanásia.

Padre Sandro Vasconcelos em entrevista

O Semanário V esteve em conversa, em exclusivo, com o Padre Sandro Vasconcelos, pároco em paróquias do concelho de Vila Verde, acerca da temática da Eutanásia, do seu projeto-lei aprovado e da posição da igreja no processo de legalização da Morte Medicamente Assistida em Portugal

Semanário V (V) – A lei da Eutanásia foi aprovada em Assembleia da República. Qual a sua posição sobre esta aprovação?

Padre Sandro Vasconcelos (PSV) – Quero começar por esclarecer que tudo o que diga não tem nada de partidário. A minha política são as pessoas. Nunca irei politizar este e outros temas.
Esta aprovação é um atentado contra a vida. Diria mais, encarar o sofrimento eliminando a pessoa é um fracasso. Perdoem-me a dureza da expressão, mas isto é matar em nome da modernidade. Fala-se muito de imunidade de grupo, perdoem-se a analogia, mas também precisamos criar humanidade de grupo.

V – Portugal passa a ser um dos quatro Países da Europa com a morte medicamente assistida legalizada. Sendo Portugal um país maioritariamente católico acha que os portugueses de reveem nesta lei?

PSV – Verdade. A eutanásia é legal na Holanda, Bélgica e Luxemburgo e o suicídio assistido na Suíça. Portugal no fundo da Europa e do mundo em termos pandémicos, mas no topo na Eutanásia.
Os Portugueses, católicos ou não, deveriam ser ouvidos. Até a medicina devia ser ouvida. Basta ler e ouvir para e perceber que a maioria está contra esta decisão. Se recuarmos a Hipócrates ele disse que “onde há amor pela arte da medicina há também amor pela pessoa”. Muitos irão dizer que isto são ideologias, mas do que se trata é defender a vida e suas etapas.
Quando refere o país maioritariamente católico deixe que diga que esta e outras decisões traduzem um analfabetismo espiritual profundo. E a culpa também é nossa, Igreja, pois ás vezes dá-me a sensação que importa mais o religioso que o espiritual. Daí o analfabetismo a que me refiro. Preocupa-me na sociedade atual, relativamente a este e outros temas, o silêncio das pessoas de bem. E para o cristão não deve importar só a qualidade de vida, mas o que ela tem de sagrado. Neste momento confunde-se o preço que vida pode ter com o valor que a vida tem.

V – Estamos em plena pandemia onde as mortes diárias em Portugal atingem números abissais. Acha que o timing para a aprovação é o mais correto?

PSV – É o mais correto para quem quer “passar” a lei quando o país, neste momento, se debate com problemas muito mais graves e as discussões assentam quase todas na pandemia. Este é o momento mais fácil, numa altura que estamos “fechados” em confinamento, confina os direitos básicos como o sair à rua para demonstrar descontentamento. É uma contradição terrível: enquanto se luta por salvar vidas, ao mesmo tempo aprovam-se leis que matam. Na minha opinião, até é uma ofensa para quem está na linha da frente. Para quem se levanta e deita todos os dias completamente esgotado para cuidar. Hoje não se sabe acolher e cuidar. Um país que em vez de investir do SNS, em cuidados paliativos, legaliza a Eutanásia comete um ato de irresponsabilidade.

V – Como padre, conhecendo a posição da Igreja Católica sobre a matéria, acha que as entidades máximas da Igreja em Portugal deviam interpelar o Presidente da República a voltar atrás? Não deveria ser um referendo a decidir esta lei tão direcionada às pessoas?

PSV – Penso que sim. E não só a Igreja. Também outras instituições e grupos que são contra esta lei “decidida pelo sentados”. Até os políticos contra esta lei deveriam ser corajosos e não dar a cara só por votos, mas também pelas causas. A Igreja, políticos, instituições etc. deveriam interceder para que, pelo menos, haja referendo. Mas só depois desta pandemia passar. Um verdadeiro e honesto referendo exige que seja feito numa altura que possamos sair à rua, discutir, ouvir, elucidar, manifestar etc.

O Padre Sandro Vasconcelos em jeito de conclusão afirma que “numa sociedade em cada um pensa na sua ‘vidinha’ e a quer viver, é curioso como alguns querem decidir a vida dos outros. A vida humana e a sua dignidade não terminam na doença e/ou velhice. Coloco a esperança naqueles que podem inutilizar esta lei cuidando, acompanhando, mimando e não matando. Recuso dar razão a Ortega quando disse que ‘o gigantesco progresso da cultura produziu um tipo de homem atual mais bárbaro que há cem anos’. Continua a acreditar no ser humano e na vida. Acredito num Deus que quer saber muito de cada ser humano, mesmo que muitos não queiram saber Dele. Eu e muitos continuaremos, sem medo – sujeitos a críticas e até a ofensas e maledicências – a não calar e também a rezar”.

Comentários

topo