Vila Verde

Vila Verde. Rebentamentos com explosivos causam prejuízo de milhares de euros

Partilhe esta notícia!

Tudo começou a 16 de setembro de 2019, uma segunda-feira, às quatro da tarde. A mulher de Rui, à chegada a casa, no número 9 da Rua Vasco da Gama, em Barbudo, decidiu descansar um pouco após longas horas de trabalho. Foi sol de pouca dura, uma vez que logo de seguida ouviu um estouro. A casa estremeceu completamente. 

Estaria longe de imaginar o real motivo daquele abanão e as complicações que daí surgiram, já lá vai mais de um ano e meio. O que é certo é que a casa, recém-construída em cima de uma lage e avaliada em cerca de 220.000€, ficou danificada até aos dias de hoje daquele tremor… E de outro, três dias depois do primeiro. 

Foi quando Rui Soares regressou do trabalho, na mesma segunda-feira, que soube do sucedido. 

“Nesse mesmo dia, cheguei e a minha mulher disse-me para ir ver como estava a casa. Um caos. Os móveis moveram-se na parte de baixo da casa. Paredes, tetos… Tudo rachado”, relembrou, em declarações ao Semanário V. 

Imediatamente, percebeu o que tinha acontecido: “andavam a alargar a estrada e fizeram um rebentamento. Meteram um dinamite mais forte, até porque tinham pouco tempo para acabar o trabalho”. Mal se apercebeu da gravidade dos factos, Rui não quis perder tempo e foi ao encontro de um dos responsáveis da empresa. “Nesse mesmo dia, fui ter com o filho do dono da empresa e disse-lhe: “Miguel, já viste como deixaste a minha casa?”

O alegado responsável, da empresa “M Costa” foi, a pedido do lesado, ver os danos ao local. Rui Soares recordou ao V a reação do empresário: “entrou-me na sala, olhou e disse que não precisava de ver mais nada. Só me disse: vamos ver se é mesmo disto [rebentamento]. Viu como estava, virou costas e foi-se embora”. 

Queixa às autoridades 

Seguiu-se, a 17 de setembro, uma queixa formalizada no Posto Territorial da GNR de Vila Verde

De acordo com o testemunho de Rui Soares, em declarações ao Semanário V, a situação tornou-se mais insólita com a ida ao posto da guarda: “Fui à GNR explicar que deitaram fogo de dinamite. Disse o que foi, quando foi e… quem foi. Nessa mesma altura, disseram-me que àquela hora não tinham nenhum praça de guarda que fosse ao local. Foram lá mais tarde. Não encontraram nada, disseram que nada podiam fazer e que nem sequer podiam ir ver a minha casa”, contou. 

E foi mais longe. “Notei que o tom da guarda mudou quando disse quem fez o rebentamento. Houve um guarda que me chamou cá fora, a pedir para não apresentar queixa”. 

“Mais dois tirinhos e acabava com tudo” 

Depois da sucessão de acontecimentos, Rui Soares voltou a dirigir-se ao responsável da empresa, Miguel Costa. 

“Parei onde eles estavam a trabalhar para falar com ele”. A resposta foi insólita. “Perguntou-me se eu queria que me arranjasse uma casa nova e disse que lhe tinha dado um prejuízo de milhares de euros”. De seguida, terá surgido a ameaça. “Quando falei na guarda disse-me: se fores à GNR, mais dois tirinhos e acabava-te com tudo”. 

Na quinta-feira seguinte “continuaram a deitar fogo de dinamite e mexeram outra vez com tudo, mas com menos potência”. Entretanto, foram levantadas as máquinas e o compressor, mas as marcas da broca ficaram no local, na Rua Vasco da Gama

O “jogo do empurra” 

O que se seguiu foi um “chega para lá” por parte de várias entidades, nomeadamente as autarquias, tal como explicou, ao Semanário, V Rui Soares: “começou o jogo do empurra. O Costa [proprietário da empresa] disse: “não é comigo, vai à junta”. Na junta, o Faria [presidente da junta da união de freguesias de Vila Verde e Barbudo] disse: “isso não é comigo, vai à câmara”. É uma cobardia. Já fui recebido duas vezes na câmara. Fui ao presidente [António Vilela], ao vereador [Manuel Lopes, responsável pelos pelouros da Qualidade, Ordenamento e Gestão do Território] e nada. Disseram-me que era para resolver. Agora que está para acabar o mandato…” 

O lesado retrata ainda que, numa terceira ida aos Paços do Concelho, não foi recebido: “fui lá em setembro ou outubro mas não me receberam. Houve um senhor que ficou com o meu número, já que o doutor [Manuel Lopes] não me quis receber no gabinete dele. Ficou de me ligar. Até hoje…”, lamentou. 

A pandemia “não tem ajudado. Está tudo parado”.

“Toda esta gente está a par da situação”, reforçou Rui Soares. “É para arranjar, é para arranjar, já passou este tempo todo e nada!” 

Um ano e meio depois 

Nos dias que correm, a situação está parada. Rui revelou ao V que a queixa, efetuada em setembro de 2019, foi arquivada pelo Ministério Público, mas garante que, apesar de ser o maior lesado “por ter a casa construída em cima de pedra”, não vai desistir, até porque os danos são avultados. 

A casa, concluída em 2013, tem prejuízos na ordem dos 22 mil euros. “Paredes estaladas, humidade a descer pelo teto e pelas paredes, caixas de ar rebentadas”. “Tens uma casinha para remediar, para viver com a tua família. Investes o dinheiro que tens… Para a casa estar assim? Venho cá fora e vejo isto: (ver fotos) mais uma rachadela aqui, outra acolá. O que é que eu faço à minha vida? Estive três noites seguidas a chorar, a pensar no que havia de fazer. Quando fico nervoso, dá-me para isto”, relatou Rui. 

“O que eu peço, no mínimo, é que me resolvam o caso. Ninguém admite nada, mas também ninguém desmente”. E concluiu: “quero mostrar aos vila-verdenses o que me fizeram”. 

Passaram-se exatamente 555 dias desde o primeiro rebentamento, a 16 de setembro de 2019, no número 9 da Rua Vasco da Gama, em Barbudo. Os sinais estão visíveis, não só na casa, mas também na estrada. 

Após todo o impasse, com empurrões de parte a parte, Rui Soares pondera agora contactar um advogado para agir judicialmente e ser ressarcido. Para já, 1 ano, 6 meses e 8 dias depois, a culpa continua solteira. 

Fotografias © Paulo Moreira Mesquita / Semanário V

Comentários

topo