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Ghalia, a síria que já é portuguesa e ajuda outros refugiados

(c) LUSA
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A história de Ghalia é dura, como a de muitos refugiados, mas ela já segura nas mãos o desejado cartão de cidadão, feliz com a nacionalidade portuguesa, seis anos depois de Lisboa lhe ter calhado em azar que virou sorte.
Ghalia, a síria que já é portuguesa e ajuda outros refugiados

À pergunta sobre como está o seu processo de pedido de nacionalidade, grita: “Não sabes? Já consegui, ‘yes’!”. E vai à carteira para o comprovar. “E sabes que mais? Deixaram-me ficar de véu [na cabeça]”, conta, agradecida. “Apenas me pediram para sorrir.”

Este final feliz da história da vida de Ghalia contrasta com o espinhoso início. No claustro do convento do século XVII que agora acolhe o Colégio do Bom Sucesso, na zona de Belém, em Lisboa, onde dali a pouco vai falar a uma turma sobre gastronomia síria, Ghalia conta a sua bem mais recente — e dura de ouvir — história da chegada a Portugal.

Com a família, Ghalia saiu de Damasco, capital da Síria, seu país de origem, em 2003. Foram para a Nigéria, onde ficaram cerca de três anos, depois mudaram-se para o Gana, onde viveram até 2011.

Ainda voltaram à Síria, mas o país tinha acabado de entrar em guerra e não tiveram outra alternativa senão tentar encontrar “um país seguro para estabilizar”.

Pediram visto à Alemanha e ao Canadá, onde têm família, mas não conseguiram. Perceberam que a nacionalidade síria não era um bom cartão de visita.

Entregaram-se às mãos de um traficante, a quem pagaram 35 mil euros por quatro passaportes falsos. O prometido destino era a Suécia — “o mundo todo falava das condições e dos direitos humanos lá” –, mas foram “apanhados” na escala em Lisboa.

Com o marido, a mãe e o filho, Ghalia ficou “alguns dias” no centro de detenção do aeroporto da capital portuguesa. “Foi muito difícil, não havia condições para idosos nem crianças”, recorda. Lembra-se de ter sido discriminada “por causa da religião e de usar o lenço”. Estava grávida de três meses e perdeu o bebé, logo ao primeiro dia.

Quando, finalmente, saíram “em liberdade”, numa “mistura de tristeza e alegria”, puderam “perceber que a realidade em Portugal era completamente diferente” da que tinham vivido no aeroporto e decidiram “dar uma oportunidade” ao país que lhes calhou em sorte.

“[Foi uma] ótima escolha. Estamos cá desde 2014 (…). Vivi em muitos países e esta sensação de sentir que estou em casa, depois de Damasco, só aqui senti (…). Comprámos uma casa cá e já temos uma vida. O meu marido trabalha, o meu filho está a estudar, agora no 10.º ano, ciência e tecnologia. Está tudo tranquilo. Estou a trabalhar. Consegui encontrar uma boa vida cá”, relata.

Quando ainda não falava “nenhuma palavra em português”, Ghalia começou a trabalhar com o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS Portugal) em 2015, apoiando na tradução dos refugiados que começavam a chegar ao abrigo dos programas de recolocação, vindos do Egito.

Com “o apoio” da equipa, foi aprendendo português, “pouco a pouco” — e hoje domina muito bem a língua. Em 2016, começou também a trabalhar na PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados) e teve “oportunidade” de conhecer a sociedade civil portuguesa e “aprender sobre cultura e tradições”.

Agora com 38 anos, faz mediação cultural e coordena a bolsa de tradutores e intérpretes, espalhados pelo país, que presta auxílio na área do asilo.

“Quando cheguei, em 2014, não havia nenhum programa de apoio aos refugiados. Eu e a minha família não recebemos nenhum apoio. Por isso, era muito difícil”, recorda.

Quando fala de apoio, Ghali faz questão de dizer que não se trata apenas de dinheiro. “Não havia nenhum apoio social, para fazer inscrições nas instituições de governo, para indicar às pessoas o que elas tinham de fazer para começar o caminho da integração”, precisa. Desde essa altura, as coisas evoluíram “muito”, avalia.

Hoje, Ghalia é um quadro ativo do Serviço Jesuíta aos Refugiados, ao qual não se cansa de agradecer. Na sede, em Lisboa, agarra-se ao telefone e vai agendando marcações com tradutores para os novos refugiados.

Coordenadora do gabinete de saúde mental do JRS, Rosario Suárez sublinha a importância da bolsa de intérpretes, que Ghalia gere, para o “complexo” trabalho de acompanhamento psicológico dos refugiados.

“Quando se faz um trabalho interno, a pessoa precisa de se sentir à vontade” e, para isso, a língua é fundamental, aponta a argentina radicada há dez anos em Portugal.

Ora, “é muito difícil aprender português quando estamos muito preocupados com outras questões, com os papéis, com a família que ficou, com tudo o que tem que ver com os lutos migratórios, que mexem com a identidade da pessoa”, lembra.

Muitos dos “perto de 50” refugiados que estão neste momento a ser acompanhados pelo serviço chegaram com “muitas sintomatologias, custa-lhes conciliar o sono, têm pesadelos, pensamentos ruminantes, muita angústia, também se encontra muito stress pós-traumático”, descreve.

“Falamos muito de saúde mental, mas faltam profissionais e intérpretes formados nesta área”, que tornam a resposta “bastante deficiente”, realça.

A pandemia veio agravar esta situação” e é necessário “um investimento mais forte nesta área”, defende.

Na capela transformada em cantina do Colégio do Bom Sucesso, gerido pela Fundação Obra Social das Religiosas Dominicanas Irlandesas, Ghalia dispõe, com a ajuda de Marta Carvalho, técnica de comunicação do JRS Portugal, as iguarias preparadas por outra refugiada síria.

Há falafel, doner kebab, húmus… sabores diferentes que as duas dezenas de rapazes e raparigas de uma turma de 10.º ano estranham, mas não desaprovam.

Os petiscos saíram da cozinha de Amal, que os embalou com a ajuda do marido, Mustafa. Emana um cheio delicioso por toda a casa e Amal esmerou-se, porque quer abrir um negócio de refeições e isto pode ser o pontapé de saída.

A sala de entrada do rés-do-chão na zona de Carcavelos está decorada com cortinas azuis nas portas e tapetes árabes. As paredes estão cheias de ‘recuerdos’ portugueses, acompanhados por um mapa da Síria feito de moedas de um cêntimo.

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