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UMinho juntou o aluno número 1 (1975) e o número 10 mil (2021)

(C) Nuno Gonçalves
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Carlos Guimarães, bracarense de 72 anos, é o primeiro aluno da casa e entrou em Formação de Professores de Matemática, em 1975. Tomás Gonçalves, fafense de 19 anos, vem para a licenciatura em Física, com 188 valores.

Carlos Guimarães, bracarense de 72 anos, é o aluno nº 1 da Universidade do Minho. Não se vangloria pelo facto, “foi um acaso” iniciar-se a contagem pelo seu curso de Formação de Professores de Matemática. As primeiras aulas nesta academia começaram a 17 de dezembro de 1975, com 240 alunos inscritos e 40 docentes. O folheto desse ano letivo anunciou dois cursos de Línguas Vivas (Francês, Inglês), dois de Engenharia (Têxtil, Metalomecânica Ligeira) e quatro de Formação de Professores (Matemática, Ciências da Natureza, Francês e Português, Inglês e Português).

“Cada curso tinha, suponhamos, do aluno 1 ao 20, era quase como nas turmas do secundário. Só mais tarde é que foram atribuídos os números de aluno da universidade e, enfim, começaram pelo meu curso e por mim”, contextualiza. Um amigo seu que arquiva estas pastas na UMinho reparou nesse facto uns anos depois e confirmou-lhe. “Tenho até uma sogra que é a aluna nº 3, foi minha colega!”, sorri Carlos.

As suas aulas decorreram no salão medieval do Largo do Paço, salvo a de Informática, que era na rua D. Pedro V, hoje sede da Associação Académica (AAUM). O horário letivo dependia da agenda dos docentes. “Um professor vinha ao sábado de Lisboa para dar Álgebra e os alunos tinham que estar disponíveis”, ilustra. O cenário era ingrato, porque a maioria deles era trabalhador-estudante. Esse fator também travava possíveis convívios no final das aulas e não havia ainda a AAUM.

O primeiro reitor, Carlos Lloyd Braga, estava no Largo do Paço, mas Carlos Guimarães não se cruzou com ele. “Curiosamente, também veio de Moçambique para Braga – ele como reitor da Universidade Lourenço Marques [atual Maputo] e eu como enfermeiro a cumprir serviço militar em Cabo Delgado, estive ali 28 meses e voltei em maio de 1974”, recorda. No regresso, aliás, concorreu a Matemática na Faculdade de Economia do Porto, mas as aulas não arrancavam, “após o 25 de Abril as coisas estavam confusas”. Entretanto, nascia a UMinho, após ameaças de não avançar e da tensão na sua localização entre as forças vivas de Braga e Guimarães. “Fiquei contente por abrir, porque é na minha terra; inscrevi-me e fiquei colocado”, resume.

E o curso, acabou? “Não, e vou dizer-lhe porquê. Alguns colegas de curso eram já professores, mas tinham o ensino secundário e procuravam o canudo, e tiveram facilidade na dispensa do serviço e nas propinas, só que eu não. Além disso, eu já era inspetor na Segurança Social [atual Instituto de Gestão Financeira] e, quando eu faltava para vir às aulas, não recebia esse salário. Também casei, fui pai… bem, acabei por abandonar no terceiro semestre”, lamenta. E regressar às aulas? “Já não, estou reformado. Mas pensei em voltar quando os meus filhos vieram estudar na UMinho”, admite. Filhos tem três: Rosa Alexandra é hoje professora de Matemática, Cristina é professora de Biologia e João é informático numa empresa em Lisboa, após ter investigado na Califórnia (EUA). “Foi aqui [auditório B1 do campus de Gualtar] que assisti à defesa do seu doutoramento em Informática”, aponta para o púlpito, orgulhoso.

Carlos também esteve em Gualtar em trabalho, a inspecionar obras em edifícios, e no campus de Azurém (Guimarães), numa iniciativa académica com o filho. Estar ao pé da estátua de Prometeu, curiosamente, foi agora a primeira vez – e logo para conhecer e congratular o aluno nº 100.000. “Quando a universidade começou, só havia aqui o Liceu [hoje Escola Secundária] Sá de Miranda, o D. Diogo de Sousa… e o país era diferente, não há comparação”, desfia, para continuar: “Nunca pensei que a UMinho ia chegar aos 100.000 alunos; agora, espero que chegue aos 200.000!”. Esta academia marca a vida da sua família: “Quase todos os meus sobrinhos também se formaram aqui”, devolve. Temos direito a mensagem para os novos alunos? “Claro que sim. Levem o ensino a sério, é uma fase da vida que tem que ser aproveitada entre trabalho e diversão, mas o futuro não parece ser lisonjeiro para os jovens, por isso espero que sejam felizes e aproveitem as oportunidades”, apela.

Há uma estória curiosa para a despedida. No Liceu Sá de Miranda, onde teve o conhecido ator Orlando Costa como colega, Carlos Guimarães foi vice-presidente das festas do Enterro da Gata em 1969. Estas festas seriam adotadas pela UMinho a partir de 1989. Na altura, o cortejo alegórico desceu a rua de Sta. Margarida até à Avenida Central e, no Theatro Circo, houve um espetáculo com música, dança e teatro. “Tínhamos a PIDE à volta, bastava juntar-se estudantes para a polícia aparecer”, elucida. Esse foi o ano da Crise Académica de Coimbra.

Fonte: Jornal Nos Universidade do Minho

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