Aires Fumega

Opinião. “Portugueses decidiram-se pela continuidade do PS sem os ‘ses’ encontrados no discurso do PSD”

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Estas eleições decorreram num contexto atípico. Mas a atipicidade não se prendeu com o facto de decorrem em plena pandemia. Aliás não é novidade para nós portugueses exercermos o direito de voto com máscara, óculos embaciados e com cheiro a álcool gel. O que tornou estas eleições ainda mais atípicas foram outros fatores:

Destaco a forma como decorreu a campanha, as múltiplas sondagens e trackpolls e a participação dos eleitores.

Não há memória de uma campanha tão participada. Houve imensos debates e para todos os gostos. Foram quase todos muito curtos, em que os candidatos se tinham que preparar muito bem. Não havia lugar para retórica. Houve que ser pragmáticos, concisos e muito práticos. A forma como os staffs se prepararam ditou quase sempre o sucesso ou o fracasso.

As sondagens e as novas trackpolls tiveram um lugar de destaque e influenciaram e muito a atitude dos candidatos. Os resultados dispares e antagónicos fizeram com que os candidatos trabalhassem mais e mobilizassem como nunca as suas “tropas”. Mas se por um lado foi determinante para fazer mexer os diversos partidos, por outro serviu para descredibilizar este tipo de ferramentas que não há memória de falharem tanto. Rui Rio foi exemplo disso: Um candidato que veio a ter 27.8% aconselhava, três dias antes das eleições, António Costa que teria 41.7% a aceitar a derrota e sair com dignidade.

Em todo caso, as sondagens e as trackpolls revelaram-se ferramentas pouco precisas e a fama que seriam produtos encomendados, ganhou ainda mais força na opinião pública.

Atípico acabou por ser o comportamento dos eleitores que votaram mais, talvez também pela dinâmica criada ou fabricada pelas sondagens apresentadas.

Por fim os resultados.

Uma campanha de máquina de calcular na mão, que foi dispensada na noite das eleições em que o Partido Socialista venceu e convenceu. Sem nunca ter sido proferida por António Costa a palavra “absoluta”, o certo é que conseguiu o seu intento. O voto útil foi pedido pelos dois pesos pesados da politica nacional, mas os portugueses decidiram-se pela continuidade e também pela audácia do programa do PS sem os “ses” encontrados no discurso do PSD. Rui Rio acaba assim por ser o grande perdedor e vítima de si próprio.

O Chega conseguiu ser a terceira força política (conseguiria se tivesse 4,99%). Acredito que mesmo assim André Ventura estaria à espera de mais. Para o bem ou para o mal de alguns, foi um resultado expressivo.

O Iniciativa Liberal com o seu estilo mais burguês acabou por ter também um bom resultado. É um partido que demonstrou apenas que a solução para o país passa por privatizar tudo. Não tem ideias sobre a questão social, o ambiente, a justiça, as finanças, a cultura etc. A não ser o que possa envolver dinheiro e a sua privatização.

O Bloco de Esquerda e o PCP foram os grandes perdedores da noite. Talvez a ideia de serem os responsáveis pela crise política que deu origem às eleições tivesse sido assimilada pelos portugueses. Era um risco e estavam plenamente cientes que pudesse acontecer.

O PAN deixou de ser a “Associação de Defesa dos Animais” com que se estreou há anos e passou a preocupar-se mais com a generalidade dos assuntos da agenda política. Talvez tenha dificuldade de se aguentar neste registo. A ver vamos.

O Livre acabou por ganhar, apesar de não mudar no espectro parlamentar. Rui Tavares limpou a imagem controversa de Joacine Katar Moreira e revelou-se ser aquele tipo simpático com que todos nós quereríamos tomar café. Tem um discurso muito coerente e agradável.

O CDS estava moribundo e acabou por falecer. O Chicão, com habilidade, abafou o Nuno Melo e conseguiu avançar sozinho para o precipício. Cabe ao Nuno Melo a proeza de ressuscitar o partido. Talvez aproveite a Páscoa para fazer isso.

Nota negativa pela paridade resultante na composição da assembleia da república. O sistema homem/homem/mulher da maioria das listas candidatas acabou por ditar uma menor representatividade das mulheres.

Em estilo de resumo, este resultado dá ao Partido Socialista excelentes condições para governar. Os resultados divulgados estranhamente no dia a seguir às eleições, ao nível do crescimento económico e redução da dívida pública, são francamente animadores.

Os próximos quatro anos, acredita-se sem a pandemia, serão a prova de fogo para este governo do Partido Socialista agora com vontade e poderes reforçados.

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Aires Fumega

Presidente da Comissão Administrativa do Partido Socialista de Vila Verde

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