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Em Montalegre não há memória de tão pouca água no Alto Rabagão

(c) LUSA
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Em Montalegre não há memória de um nível tão baixo de água na barragem do Alto Rabagão, um sinal da seca que preocupa autarcas, população e de quem vive dos negócios impulsionados pela albufeira.

A paisagem que envolve esta barragem está árida. O nível da água desceu mais de 30 metros, afastando-se das aldeias que envolvem a albufeira conhecida localmente como a barragem dos Pisões que é uma atração turística em Montalegre, no distrito de Vila Real.

Em Viade de Baixo, no viveiro da Quinta do Salmão, Domingos Lemos revela um olhar preocupado com o futuro e disse que, em 31 anos de trabalho neste viveiro de trutas, nunca viu “nada disto”.

“É a primeira vez que se vê assim tão pouca água na barragem. Teima em não chover e se não chove não pode haver água”, apontou.

O encarregado deste viveiro explicou que foi já necessário transferir a estrutura onde estão os peixes para partes “mais fundas” da albufeira, agora preenchida com pequenas ilhas inexistentes até há uns meses atrás.

“E o que implica no trabalho é que, agora, a água fica muito gelada, é pouca água e arrefece muito rápido e, se assim continuar de verão, vai aquecer muito rápido e o peixe não aguenta estas temperaturas”, explicou, salientando que em causa “pode estar a produção” e os “postos de trabalho”.

Aqui trabalham seis pessoas e a produção média anual é de cerca de 350 toneladas de trutas que são vendidas para grandes superfícies.

Esta foi também uma das barragens abrangidas pela decisão do Governo de suspender a produção hidroelétrica, uma medida que ajudou a manter o nível da albufeira, no entanto o vice-presidente da Câmara de Montalegre, David Teixeira, disse que poderia ter sido feito mais para “acautelar” esta situação.

“Se os túneis de retorno tivessem sido utilizados principalmente durante a noite para bombagens, os níveis de água teriam sido mantidos muito mais acima daquilo que estão neste momento. Ainda não estão no nível mínimo, é importante que se diga, mas também tiveram que parar a produção e apenas manter o caudal ecológico”, afirmou o autarca.

A barragem está ligada a uma outra na Venda Nova de onde é feito o retorno da água para o Alto Rabagão.

“Penso que não houve uma previsão correta e não houve uma programação da EDP, claro que teria custos na bombagem, para também é preciso valorizar e, sobretudo, respeitar, a população local, que tem os seus investimentos”, salientou.

Desta barragem é fornecida água para localidades dos concelhos de Montalegre, Chaves e Valpaços.

Em Montalegre, a seca reflete-se também nos pastos sem alimento para os animais e ainda nos incêndios.

Sem chuva ou neve, que costuma cair no concelho no mês de janeiro, David Teixeira contabilizou “seis a sete ignições” por dia nas últimas semanas e explicou que os incêndios “têm tomado proporções muito grandes”.

“Praticamente as melhores pastagens foram todas já devastadas pelos incêndios e os pastores, principalmente de pequenos ruminantes e quem tem o pastoreio extensivo, não têm onde alimentar o seu gado”, sublinhou.

Carlos Baía vive em Vilarinho de Negrões, que entra na albufeira e é conhecida como a aldeia flutuante, mas que agora vê a água “lá ao fundo”

“Esta altura está um bocado complicada, está tudo seco, tudo queimado pelas geadas e já há pouco pasto para os animais. Os animais vão comendo urzes e giestas, o que ainda vão apanhando”, salientou este pastor que tem um rebanho de 160 cabras.

Se assim continuar, disse que terá que comprar alimentação para os animais, mas lamentou que “está tudo muito caro”. “Subiu quase para o dobro”, ressalvou.

David Teixeira disse ainda que o município está a preparar uma campanha com vista à redução do consumo de água.

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