Vila Verde

Chega de Braga. Presidente e Vice em rota de colisão: “não podemos ter fotos ao lado de ban####”

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Eugénia Santos, vice-presidente da distrital de Braga do Chega foi suspensa pela Comissão de Ética do partido, depois de publicamente ter denunciado dívidas do presidente da distrital e deputado Filipe Melo. Desafiou ainda André Ventura a afastar o deputado.

Segundo Eugénia Santos, após a entrega das listas de deputados pelo círculo eleitoral de Braga, recebeu “uns documentos relativamente ao presidente da distrital de Braga.” Foi no passado dia 11 de janeiro, ainda antes das Eleições Legislativas, que a vice da distrital de Braga foi a Tomar com variadíssima documentação sobre Filipe Melo de elevada “gravidade”, para entregar pessoalmente a André Ventura. “Fiz o que achei ser mais correto pelo partido e pelo futuro do país”, diz.

Esta segunda-feira (14), Eugénia Santos foi suspensa de militante e adianta que vai apresentar a demissão da distrital e desfiliar-se do partido: “Independentemente do que aconteça daqui para a frente não vou continuar a representar esta distrital e apresentarei a minha demissão e procederei à minha desfiliação do partido.”

Na origem da contestação ao presidente da Distrital – eleito deputado à Assembleia da República nas últimas Eleições Legislativa – está o facto de Melo ter sido condenado pelo Tribunal Judicial de Braga a pagar dívidas superiores a 80 mil euros, como já havia noticiado o Semanário V. Consultando a Lista Pública de Execuções é fácil de comprovar que Filipe Melo é identificado em três processos de execução com um intervalo de cerca de um ano entre as três execuções. Consta neste registo por “não se conseguir encontrar bens penhoráveis suficientes para pagar as dívidas” pelos agentes de execução.

Filipe Melo de Braga sem apoio de concelhias do Chega nas legislativas

Na última semana de campanha, o Semanário V contactou muitas das concelhias afetas à Distrital e Braga e as respostas à redação foram unânimes: não estavam ao lado de Filipe Melo, mas sempre ao lado de André Ventura. A Concelhia de Barcelos do Chega anunciou no último dia de campanha (28), a retirada de confiança política à Distrital de Braga e ao seu presidente. Numa carta aberta assinada por Agostinho Mota, podia ler-se que “a Comissão Política Concelhia de Barcelos decidiu retirar a Confiança Política à Direção Distrital de Braga”, na sequência de “vários atropelos perpetuados pela Comissão Política Distrital de Braga, nomeadamente o seu presidente (Filipe Melo)”. O coordenador da Concelhia de Barcelos considerava que a “gota de água” foi o facto de a Distrital ter ido a Barcelos em ações de campanha “por duas vezes, sem antes comunicar e/ou reunir”, com a Concelhia.

Em exclusivo ao V, Agostinho Mota dizia que como presidente de uma Distrital “é mal preparado e irresponsável, não sabe cativar, apenas sabe afastar, quem tem uma opinião diferente da dele (…) Barcelos não é a única que está em desacordo com a direção distrital de Braga, há pelo menos 4 concelhias que estão, igualmente arrestadas ou em desacordo com a atual direção distrital de Braga.”

Fernando Silva, vereador na Câmara de Vila Verde eleito pelo Chega nas autárquicas de 2021, também mostrou o seu descontentamento perante Filipe Melo, cabeça de lista do Chega por Braga, e a gota de água foi na arruada promovida pelo Chega em Vila Verde que segundo Fernando Silva “não foi convidado”. Dizia ao V sentir-se ““posto de lado pela distrital de Braga num terrorismo político sem precedentes.”

Ao Semanário V, Vítor Meira, presidente da Concelhia do Chega de Famalicão disse que “esta pessoa (Filipe Melo) não reúne nenhuma qualidade como pessoa ou política para assumir uma candidatura por este Partido (…) ele é a aposta errada, como todas as decisões posteriormente tomadas por ele só criaram uma maior clivagem entre ele, dono e senhor da distrital, e das estruturas concelhias do distrito. No meu caso específico, não lhe devo vassalagem.” Vítor Meira diz ainda “quando algum presidente concelhio se começava a destacar, tinha que ser afastado. Fui traído por ele (Filipe Melo) e pelo seu pupilo de Famalicão com a promessa de lugar na lista e na presidência da concelhia.” Conclui dizendo que, “obviamente tudo o que se passou foi transmitido em reunião concelhia e estamos solidários na decisão tomada, por unanimidade, de condenar esta traição.” “No Chega não há lugar para pessoas destas”, concluiu.

Eugénia Santos subscreve comunicado conjunto das concelhias contra Filipe Melo

Segundo o Observador, esta segunda-feira (14) foi enviado um “comunicado conjunto” das “concelhias do Chega em Braga” à imprensa onde o seu protesto subiu de tom: “No seguimento da última publicação da revista Visão, sobre o presidente da Distrital de Braga e deputado eleito pelo círculo eleitoral de Braga, as concelhias do distrito vão marcar uma posição de total afastamento da pessoa em questão, pois não se reveem em absoluto em Filipe Melo e não encontram justificação para os seus comportamentos.”

A revista Visão descreveu situações pouco claras – como as dívidas serem contraídas para adquirir bens e o próprio não ter bens para as pagar -, e de ter acumulado processos judiciais. Escreve o Observador que Eugénia Santos, o secretário José Osório e o tesoureiro Filipe Araújo estão solidários com as concelhias.

“Lei da rolha” que André Ventura impôs para tentar conter as constantes guerras internas entre militantes, aplicada

No mesmo dia que assina o comunicado, Eugénia Santos – “Jenny”, como é conhecida no seio do partido – foi suspensa por 90 dias. A decisão da Comissão de Ética, liderada por Rui Paulo Sousa, tem “efeitos quanto a todos os mandatos e funções do visado, bem como quanto à sua capacidade eleitoral ativa e passiva.” Segundo apurou o Semanário V, o motivo da suspensão não terá a ver com o comunicado, mas sim o comentário à publicação da página de André Ventura no Facebook.

Questionado sobre a “guerra aberta” na distrital de Braga, André Ventura referiu ao jornal i que enquanto presidente do Chega “não interfere nas decisões dos órgãos disciplinares”, mas defendeu as decisões da Comissão de Ética, notando que é “fundamental existir disciplina e ordem no Chega”.

Vice-presidente reage à suspensão – “‘não podemos ter fotos ao lado de ban#####’”

© Facebook de Eugénia Santos

Já esta terça-feira, e após a suspensão, Eugénia Santos usou a rede social Facebook para reagir, dizendo que logo após as últimas Eleições Autárquicas demonstrou o seu desagrado a Filie Melo por falta de apoio nessas eleições. A vice-presidente acusava também o presidente de não a deixar fazer publicações na sua conta de Facebook de apoio a André Ventura, “dizendo que tudo o que se fazia devia ser com a sua [de Filie Melo] autorização, pois ‘ainda havia quem mandava’.”

Escreveu ainda que em meados de outubro passado referiu a Filipe Melo “a falta de trabalho da Distrital de Braga que sempre se resumiu a fotos, comentários nas redes sociais, convívios com outras distritais e jantares; que não me agradava que algumas das pessoas que trabalharam desde sempre fossem colocadas em segundo plano, preferindo aqueles que contribuíam financeiramente. No final disse-lhe que não tinha qualquer tipo de interesse para o futuro e que não desejava continuar, e deixei à consideração dele quando seria oportuno apresentar a minha demissão para não prejudicar o seu projeto pessoal de ser deputado da nação.” E avisa: “Tenho todas as mensagens trocadas com ele e em momento oportuno tornarei públicas.”

Eugénia Santos diz então – referindo-se à documentação sobre Filipe Melo na sua posse – que a 11 de janeiro foi ter com André Ventura a Tomar, e lhe terá entregue tudo que tinha em sua posse que alegadamente comprometia Melo. De seguida ausentou-se da campanha “pois como diz o nosso presidente ‘não podemos ter fotos ao lado de ban#####’.”

“Cabe a André Ventura mostrar se realmente é anti-sistema ou não… Desde o dia 11 de janeiro que ele sabe toda a verdade”

Diz ainda a dirigente distrital do Chega que depois do comunicado conjunto das concelhias ao qual se associou “a história tinha de ser contada, pois o presidente da Distrital é perito em inventar histórias e romantizar mentiras. Agora cabe ao presidente André Ventura mostrar se realmente é anti-sistema ou não… Desde o dia 11 de janeiro que ele sabe toda a verdade.”

“Independentemente do que aconteça daqui para a frente e como já o referi neste texto não vou continuar a representar esta distrital e apresentarei a minha demissão e procederei à minha desfiliação do partido”, remata.

© Facebook de Eugénia Santos

Nota: notícia atualizada às 11:25 do dia 17/02/2022-

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