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Como é que Zelensky se transformou no homem do momento?

Volodimir Zelensky © 2022 Semanário V
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Na altura em que era comediante, o atual presidente da Ucrânia costumava criticar o Governo ucraniano nos seus espetáculos. Há poucos anos, Volodimir Zelensky, enquanto ator, satirizou a corrupção e a má administração na Ucrânia ao interpretar o presidente ucraniano numa série televisiva. Ator, comediante e produtor/diretor cinematográfico… Agora lidera toda a força ucraniana contra a invasão russa, e é o Homem do Momento.

Juventude, família e educação

Nasceu na Ucrânia a 25 de janeiro de 1978, na cidade de Kryvyi Rih, então parte da República Socialista Soviética da Ucrânia.

Filho de Oleksandr Zelensky, um matemático e professor, e de Rymma Zelenska, engenheira. O seu avô paterno, Semyon (Simon) Ivanovych Zelenskyy, serviu no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial; o pai de Semyon e três irmãos foram mortos no Holocausto. Além de Semyon, uma avó de Zelensky escapou dos nazis ao ser evacuada para o Cazaquistão.

Zelenskyy referiu que cresceu numa “família judia soviética comum”, não muito religiosa, pois a religião era reprimida pela União Soviética. Quando era criança, a sua família mudou-se para a cidade de Erdenet, na Mongólia, diante de compromissos profissionais de Oleksandr. Ali, a família permaneceu durante quatro anos. Zelensky aprendeu a língua mongol, embora tenha confessado mais tarde que pela falta de prática, não sabia pronunciar nenhuma palavra em mongol. Também fala russo nativo, assim como muitos que vivem na região de Dnipropetrovsk. Fala fluentemente ucraniano e inglês.

Após quatro anos na Mongólia, Zelensky e a sua família regressaram a Kryvyi Rih, onde ingressou no ensino primário. Durante a juventude, tinha a aspiração de ser guarda fronteiriço; posteriormente, desejava seguir carreira diplomática. Aos 16 anos, foi aprovado no teste de inglês como Língua Estrangeira e recebeu uma bolsa de estudos para estudar em Israel. Contudo, o pai não permitiu que se mudasse para aquele país. Em 1995, matriculou-se no Instituto de Economia de Kryvyi Rih e formou-se em Direito por esta instituição em 2000. Não exerceu nenhuma atividade jurídica.

Em 2003, Zelensky casou-se com Olena Zelenska. Ambos eram colegas de escola em Kryvyi Rih, embora só se tivessem conhecido na universidade. Relacionaram-se durante oito anos antes do casamento. Têm dois filhos: Oleksandra, nascida em julho de 2004, e Kyrylo, nascido em janeiro de 2013.

A mudança para a política

Em 2018 decidiu mudar de carreira e concorreu ao cargo público mais alto do país. Foi no último dia do ano, a 31 de dezembro, que Zelensky anunciou a sua candidatura às Presidenciais ucranianas de 2019, ao mesmo tempo que o então presidente, Petro Poroshenko, fazia o discurso de Ano Novo no canal de televisão 1+1.

Apesar de ter estatuto de “outsider” político, ganhara já alguma popularidade em várias sondagens. A ascendência de Zelensky nas pesquisas foi fruto da rejeição às elites e aos políticos, vistos por boa parte da população como incapazes de superar as dificuldades económicas e os escândalos de corrupção no país.

Disse querer promover a meritocracia na escolha dos cargos governamentais, despolitizar o poder judiciário e eliminar o privilégio dos deputados, juízes e do presidente. Propôs ainda estipular a realização de referendos e afirmou que não seria candidato à reeleição.

Na altura, disse numa entrevista que, como presidente, tentaria acabar com a guerra em Donbass negociando com a Rússia, Em entrevista ao Der Spiegel, em março de 2019, disse que entrou na política para restaurar a confiança nos políticos e que queria “levar pessoas profissionais e decentes ao poder” e que “gostaria de mudar o humor e o tom do establishment político, tanto quanto possível.”

Identificava-se como populista, antissistema e anticorrupção.

Na política externa, Zelensky manifestou o desejo de terminar com a guerra com a Rússia, assim como a retirada das forças militares russas no país e de exigir uma compensação pelos conflitos. Zelensky prometeu manter a aproximação com o mundo ocidental e defendeu a entrada da Ucrânia na União Europeia e na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO). Não obstante, disse preferir que ambas as questões fossem decididas por referendo.

Na primeira volta no final de março, Zelensky teve 30,2% dos votos, superando o presidente Petro Poroshenko, que atingiu 15,9%, e Iúlia Timochenko, com 13,4%. O presidente Poroshenko procurou explorar a inexperiência política de Zelensky, afirmando que seria o único capaz de enfrentar a Rússia e garantir a integridade territorial ucraniana. Também foi questionada a sua ligação com o oligarca bilionário Ihor Kolomoyskyi.

Zelensky foi eleito presidente em 21 de abril, derrotado Poroshenko com facilidade. Numa votação com participação de 62,8% dos eleitores, alcançou 13,5 milhões de votos, ou 73,22%, face aos 4,5 milhões de votos do presidente incumbente, correspondente a 24,45%. Zelensky venceu em quase todas as regiões, salvo em Lviv; nas outras, atingiu 60% em Kiev, 70% na região de Kiev, 86% em Kharkiv e 89% em Luhansk. No seu discurso de vitória, declarou: “Embora ainda não seja presidente, posso falar como cidadão da Ucrânia: a todos os países da antiga União Soviética, olhem para nós. Tudo é possível.”

Cerimónia de posse de Zelensky na presidência ucraniana

Foi empossado como presidente da Ucrânia a20 de maio de 2019. Tornou-se o presidente mais jovem da história do país, o primeiro judeu e o sexto desde sua independência.

Em julho de 2019, o Servo do Povo, partido do presidente, venceu as eleições legislativas, conquistando a primeira maioria absoluta na história política da Ucrânia. O partido obteve 43% dos votos válidos, elegendo 254 deputados. O partido Plataforma de Oposição – pela Vida ficou num distante segundo lugar, com 13% dos votos e 43 lugares. Os partidos liderados por Yulia Tymoshenko e Poroshenko tiveram 8% dos votos cada e elegeram 26 e 25 parlamentares, respetivamente. A revista The Economist afirmara que os resultados refletiam o desgosto dos eleitores com a sua elite dominante e apostaram na confiança às reformas defendidas por Zelensky.

Zelensky foi um incansável defensor da união entre as partes da Ucrânia que falam russo e ucraniano. Utiliza redes sociais como seu principal meio de comunicação, principalmente o Instagram.

Relações com a imprensa

O partido Servo do Povo propôs reformas nas leis de imprensa com a intenção de aumentar a concorrência e travar o domínio dos oligarcas ucranianos nas emissoras de televisão e de rádio. A sua oposição alegara que a proposta poderia aumentar o risco de censura pois a previsão de responsabilização criminal pela distribuição de desinformação poderia ser má utilizada. Zelensky defendeu a necessidade de combater notícias falsas e a propaganda russa – para isso, propôs impedir que cidadãos russos possuíssem ou financiassem empresas de comunicação.

Entre 10 e 11 de outubro de 2019, Zelensky realizou a mais longa entrevista coletiva da história mundial, com duração de 14 horas. O recorde foi registrado no Guinness Book e superou o previamente estabelecido por Alexander Lukashenko. O presidente respondeu a cerca de 500 perguntas, formuladas por 300 jornalistas.

Pandemia de COVID-19 – recusou-se a comprar a vacina russa Sputnik V

Zelensky foi vacinado contra a COVID-19 em março de 2021. Diante da pandemia de COVID-19, o presidente ucraniano determinou a introdução da quarentena e medidas de distanciamento social e de uso de máscaras. O presidente defendeu as ações como forma de salvaguardar as vidas e a economia.

O modo de combater a pandemia foi semelhante ao adotado nos demais países europeus. Zelensky recusou-se a comprar a vacina russa Sputnik V, argumentando que sua efetividade não foi comprovada. O Chefe de Estado foi vacinado com a vacina Oxford-AstraZeneca e incentivou a população a também ser vacinada, como forma de “nos permitir viver sem restrições novamente.” No entanto, o ritmo de vacinação era um dos menores da região, com metade dos habitantes a recusarem a vacina.

Apenas 36% dos ucranianos estava completamente imunizado em fevereiro de 2022 e, na mesma época, o país tinha registado 112 mil mortos pela doença.

Nem tudo é bom para Zelensky

Zelensky nunca teve o seu índice de popularidade tão em alta, no entanto, antes da guerra com a Rússia, a história era outra. Muitos compatriotas seus estavam insatisfeitos com ele, por variadas razões.

Os seus opositores alegam que Zelensky tem vindo a retirar o poder dos oligarcas como forma de centralizar a autoridade e fortalecer-se a si mesmo.

O Chefe de Estado foi incapaz de cumprir com a sua promessa eleitoral de acabar com o conflito no leste da Ucrânia. Os acordos de Minsk também não tiverem nenhum avanço.

Quando rebentou o escândalo mundial dos Pandora Papers, Zelensky foi identificado numa rede de empresas offshore fundada e mantida por ele e a sua comitiva. Entre as disposições financeiras estão pelo menos dez empresas que lhe pagaram dividendos (cujo montante permanece desconhecido) após a sua chegada à liderança do país. Através destas empresas, é proprietário de bens imobiliários de luxo no coração da capital britânica Londres. A investigação desta rede internacional de jornalistas revelou que as empresas do presidente ucraniano foram pagas indiretamente por um oligarca.

Invasão Russa e o status de herói internacional

Zelensky foi empurrado para o centro da maior guerra europeia dos últimos 80 anos e é provavelmente, atualmente, a figura mais admirada em todo o mundo, graças, em parte, do mediatismo que alcança nas redes sociais.

A andar a pé, nas ruas da capital do seu país, desafiara abertamente as forças militares russas num vídeo publicado nas redes sociais. Ao mesmo tempo que desafiava uma das potências mais temidas do mundo, recusava uma “boleia” dos Estados Unidos da América dizendo que o que precisava era de munições para defender o seu povo. E aí estava. Mesmo diante dos nossos olhos, um líder acabara de ser levantado ao status de herói internacional. “Estamos todos aqui, defendendo nossa independência, nosso país. Glória aos homens e mulheres que nos defendem. Glória à Ucrânia. Glória aos heróis”, dizia.

Em tempos em que o poder de inspirar é quase tão importante como uma peça de artilharia, Zelensky equipou-se como poucos, mostrando uma capacidade invulgar de motivar o seu povo e o mundo. E o mundo tem respondido.

Zelensky assinou o pedido formal de adesão à União Europeia © Twitter

A 28 de fevereiro deste ano, Zelensky, assinou o pedido formal para a entrada do país na União Europeia. “É um momento histórico”, lê-se numa mensagem da Verkhovna Rada (Parlamento ucraniano) divulgada pela rede Telegram, onde se pode ver o Presidente ucraniano no momento da assinatura do documento. A Comissão Europeia abriu a porta à entrada da Ucrânia na UE, mas lembrando que o processo é longo, apesar do pedido de Kiev de um procedimento especial para integrar o país “sem demora”.

Ironicamente, foi ele que prometeu acabar com o conflito da Ucrânia com a Rússia em campanha eleitoral. Tentou, inclusive, dialogar com o presidente russo, Vladimir Putin. A sua administração, porém, resultou numa escalada de tensões com a Rússia que culminou com a invasão russa em fevereiro de 2022. Após a invasão, o presidente ucraniano declarou a Lei Marcial por toda a Ucrânia e mobilizou todos os homens até as 60 anos para se prepararem para a guerra.

A guerra, essa, continua…

Investidas russas em Kiev, Ucrânia – © 2022 Semanário V

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