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Ataque a uma central nuclear. Entenda os perigos

Escritórios da central nuclear ucraniana de Zaporizhzhia que terá sofrido um incêndio © Google / Semanário V
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Ucrânia. As tropas russas tomaram a central nuclear ucraniana de Zaporizhzhia, a maior da Europa, onde deflagrou um incêndio, que entretanto foi extinto pelos bombeiros.

A Rússia está, desde a madrugada de 24 de fevereiro a investir numa ofensiva militar com três frentes na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamentos em várias cidades.

“Alertamos todo o mundo para o facto de que nenhum outro país além da Rússia ter alguma vez disparado contra centrais nucleares. Esta é a primeira vez na nossa história, a primeira vez na história da Humanidade. Este Estado terrorista recorreu agora ao terror nuclear”, afirmou Volodymyr Zelensky, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

O ataque em si foi uma violação direta da Convenção de Genebra, a convenção dá à infraestrutura de energia nuclear “proteção especial contra ataques”.

Vamos falar de Chernobyl?

Quando a central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, foram tomadas pelas forças russas na semana passada, os níveis de radiação na zona de exclusão – que inclui quatro reatores fechados, um dos quais explodiu em 1986 espalhando resíduos radioativos por toda a Europa – foram excedidos, alegadamente por atividade militar na zona, de acordo com o regulador nuclear daquele país.

O acidente nuclear de Chernobyl de 1986 foi um acidente nuclear catastrófico ocorrido entre 25 e 26 de abril  no reator nuclear nº 4 – modelo RBMK – da Central Nuclear de Chernobyl, perto da cidade de Pripiat, no norte da Ucrânia Soviética, próximo da fronteira com a Bielorrússia Soviética. Está classificado como nível 7 na escala INES. O nível 7 corresponde a uma enorme libertação de material radioativo na atmosfera com grandes efeitos no ambiente e na saúde e exige a implementação de contramedidas extensas e planeadas.

O acidente ocorreu durante um teste de segurança ao início da madrugada que simulava uma falta de energia da estação, durante a qual os sistemas de segurança de emergência e controlador de energia foram intencionalmente desligados. Uma combinação de falhas inerentes no projeto do reator, bem como dos operadores dos reatores que organizaram o núcleo de uma maneira contrária à lista de verificação para o teste, resultou em condições de reação descontroladas.

A água superaquecida foi instantaneamente transformada em vapor, causando uma explosão de vapor destrutiva e um subsequente incêndio que lançou grafite – usados como material moderador no RBMK – ao ar livre e produziu correntes ascendentes consideráveis por cerca de nove dias.

No acidente, as medidas de segurança foram simplesmente ignoradas. Os reatores RBMK não possuem a estrutura de contenção – uma cúpula de betão e aço sobre o próprio reator desenhada para conter a radiação em caso de acidente. Por consequência, vários elementos radioativos foram espalhados, incluindo plutónio, césio, iodo e estrôncio. Foram libertados na atmosfera mais de 100 elementos radioativos.

Os isótopos estrôncio-90 e césio-137 ainda se encontram no local até hoje. O iodo, o estrôncio e o césio foram os elementos mais perigosos que foram libertados e têm uma semi-vida de 8 dias, 29 anos e 30 anos, respetivamente.

O fogo foi finalmente contido a 4 de maio desse mesmo ano. As plumas de produtos de fissão lançadas na atmosfera pelo incêndio precipitaram-se sobre partes da União Soviética e da Europa Ocidental. O inventário radioativo estimado que foi libertado durante a fase mais quente do incêndio foi aproximadamente igual em magnitude aos produtos de fissão aerotransportados libertados na explosão inicial.

Cerca de 150.000 quilómetros quadrados na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia estão contaminados, estendendo-se para o norte do local até 500 quilômetros. A “zona de exclusão”, praticamente desabitada, é constituída por uma área de 30 quilómetros em torno da central nuclear.

Escritórios da central nuclear ucraniana de Zaporizhzhia que terá sofrido um incêndio © Google / Semanário V

Perigo iminente

“É uma situação única na história da energia nuclear – na verdade, na História – em que uma nação que opera 15 reatores nucleares está no meio de uma guerra de grande escala”, afirma Shaun Burnie, especialista em energia nuclear do Greenpeace na Ásia Oriental, em entrevista ao jornal alemão DW.

“A ideia de proteger [as instalações nucleares] no caso de uma guerra em larga escala nunca fez parte do planeamento de uma nação, pelo menos em termos de energia nuclear comercial”, afirmou. Embora alguns reatores da era da Guerra Fria tenham sido construídos na então União Soviética no subsolo para evitar ameaças militares, as “enormes instalações” na Ucrânia foram todas construídas sobre o solo”, explicou Burnie.

“Uma central nuclear é uma das instalações industriais mais complexas e sensíveis, que exigem um conjunto muito complexo de recursos em estado de prontidão – e em permanência – para mantê-las seguras. E isso não pode ser garantido numa guerra”, escreveu Burnie e seu colega Jan Vande Putte, também do Greenpeace na Ásia Oriental, num comunicado divulgado na passada quarta-feira (2).

Os reatores nucleares em funcionamento são especialmente vulneráveis em cenário de guerra, dado o perigo iminente de ocorrer uma falha na rede elétrica. Se os bombardeamentos impedirem o fornecimento de energia a uma central nuclear, o arrefecimento do reator podem ser comprometidos. No pior cenário, poderemos assistir a uma tragédia semelhante ao acidente nuclear de Fukushima, onde teve lugar uma enorme libertação de material radioativo, tornando-se o maior desastre nuclear desde o acidente nuclear de Chernobyl.

A escalada do conflito armado junto à central nuclear de Zaporizhzhia colocou a comunidade internacional em sobressalto. O local já é vulnerável, pois alguns dos reatores antigos foram construídos já há meio século, na década de 1970. Roger Spautz, ativista nuclear do Greenpeace da França e Luxemburgo, diz que a vida útil original de 40 anos desses reatores já foi ultrapassada.

Tropas russas tomaram a central nuclear ucraniana de Zaporizhzhia

Spautz avisa que o maior risco é um míssil atingir os locais onde são armazenados os combustíveis ou então que não seja possível o arrefecimento, devido a falha elétrica. “É necessário que haja eletricidade 24 horas por dia.” Acrescenta ainda que os geradores a diesel “podem não conseguir trabalhar durante várias semanas, algo imprescindível em tempos de guerra.”

As centrais nucleares são instalações sinalizadas como contendo “matérias perigosas” no direito internacional humanitário e “nunca devem ser atacadas”, diz Doug Weir, diretor de pesquisa e política do Observatório de Conflitos e Meio Ambiente, sediado no Reino Unido, referindo-se à Convenção de Genebra.

A central nuclear de Zaporizhzhia

Para Burnie, a Putin entende perfeitamente os perigos que corre e suas consequências ao perpetuar um ataque a essas instalações. Uma contaminação nuclear na própria Rússia é um cenário possível,  se os ventos soprarem na direção de leste.

Spautz realçou a preocupação que todos devemos ter na tomada da central nuclear ucraniana pelos russos, uma vez que pode não haver pessoal necessário e habilitado para a gerir adequadamente: “são precisos centenas de técnicos que conheçam as instalações.”

A Greenpeace – organização não governamental ambiental com sede em Amesterdão – em comunicado alertou para a vulnerabilidade das centras nucleares ucranianas, no caso de inundação do rio Dnipro, que flui nas proximidades da central de Zaporizhzhia.

Caso o sistema de barragens e reservatórios do Dnipro – que fornece água para o arrefecimento dos reatores de Zaporizhzhia – for danificado e o fornecimento de água for condicionado, o combustível nuclear poderá começar a superaquecer e libertar radiação. “Todas essas instalações precisam de monitorização constante”, afirmou Burnie.

Escritórios da central nuclear ucraniana de Zaporizhzhia que terá sofrido um incêndio © Google / Semanário V

NATO: ataque a central ucraniana revela perigo de desastre nuclear

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, considerou hoje (4), que o ataque russo desta madrugada contra a central ucraniana de Zaporizhzhia revela “quão perigosa é esta guerra” na Ucrânia, demonstrando ainda o “perigo potencial de um desastre nuclear”

“O ataque realça o quão perigosa é esta guerra”, comentou Jens Stoltenberg, falando em conferência de imprensa na sede da NATO, em Bruxelas, após uma reunião extraordinária do Conselho do Atlântico Norte, o principal organismo de decisão política da organização e no qual cada país-membro tem assento ao nível dos chefes de diplomacia.

“Exortamos o Presidente Putin a parar imediatamente esta guerra, a retirar todas as suas forças da Ucrânia e a empenhar-se em verdadeiros esforços diplomáticos de boa-fé. Agora”, vincou o líder da Aliança Atlântica.

Jens Stoltenberg apontou que o ataque desta madrugada demonstra também “o perigo potencial de um desastre nuclear relacionado com esta guerra”.

Ainda assim, segundo observou o secretário-geral, “o que estamos a ver é que o Presidente Putin subestimou totalmente a força das forças armadas ucranianas e eles conseguiram recuar para lutar e abrandar os avanços russos”.

E garantiu: “Não fazemos parte deste conflito, mas temos a responsabilidade de assegurar que este não se agrave e se espalhe para além da Ucrânia, porque isso seria ainda mais devastador e mais perigoso, com ainda mais sofrimento humano”.

“A NATO não procura uma guerra com a Rússia”, concluiu Jens Stoltenberg.

Incêndio visto na transmissão ao vivo da central nuclear de Zaporizhzhia – Zaporizhzhia NPP

As tropas russas tomaram a central nuclear ucraniana de Zaporizhzhia, a maior da Europa, informou, esta sexta-feira, o regulador nuclear estatal da Ucrânia, acrescentando que a equipa da central controla o estado dos edifícios e garante seu correto funcionamento.

As forças russas bombardearam na última madrugada a maior central nuclear da Europa, no sul da Ucrânia, onde deflagrou um incêndio, que, entretanto, foi extinto pelos bombeiros.

O regulador nuclear estatal da Ucrânia garantiu que os seis reatores de Zaporizhzhia não foram afetados e que o incêndio atingiu apenas um edifício e um laboratório do local.

Bruxelas acolhe hoje reuniões extraordinárias de ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO e da União Europeia (UE), ambas em formatos alargados, para discutir a guerra em curso na Ucrânia, ao nono dia da ofensiva militar russa.

A reunião desta sexta-feira do Conselho do Atlântico Norte, presencial e presidida pelo secretário-geral, Jens Stoltenberg, foi alargada aos chefes de diplomacia da Suécia, Finlândia e UE.

Pela tarde, Jens Stoltenberg participa naquele que é o quinto Conselho extraordinário de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE no espaço de pouco mais de uma semana, em formato alargado.

A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar com três frentes na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamentos em várias cidades.

O Presidente russo, Vladimir Putin, justificou a “operação militar especial” na Ucrânia com a necessidade de desmilitarizar o país vizinho, afirmando ser a única maneira de a Rússia se defender e garantindo que a ofensiva durará o tempo necessário.

O ataque foi condenado pela generalidade da comunidade internacional, e a UE e os Estados Unidos, entre outros, responderam com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas para isolar ainda mais Moscovo.

Fontes: Agência Internacional de Energia Atómica, Greenpeace, Observatório de Conflitos e Meio Ambiente, Lusa, jornal alemão DW, Reuters, Wikipedia, overtdefense.com, “Otimização da Rede de Vigilância em Contínuo da Radioatividade Ambiente” – dissertação de mestrado de Filipa Vieira Jerónimo.

Que tragédia assistiríamos se uma bomba atómica caísse agora em Kiev?

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