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Ucrânia. ‘Êxodo’ de estrangeiros afeta desporto russo e ucraniano

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A invasão da Rússia à Ucrânia tem motivado o ‘êxodo’ de desportistas estrangeiros nas duas nações, cuja explicação flutua entre o medo inerente à vida num país em conflito e o desagrado para com o país agressor.

Nélson Monte era o único futebolista português a competir no campeonato ucraniano e assistiu, durante a madrugada de 24 de fevereiro, ao início de uma ofensiva militar nesse território do leste europeu, com forças terrestres e bombardeamentos em várias cidades.

Com a prova suspensa, devido à imposição da lei marcial no país, o defesa do Dnipro experienciou obstáculos e receios desde que se colocou em fuga até transpor a fronteira com a Roménia, tendo regressado a Portugal ao fim de três dias de viagem e dois voos.

Semelhante ‘desafio’ atravessou o treinador Paulo Fonseca, casado com uma ucraniana, que esteve retido em Kiev, onde estava o plantel do seu ex-clube Shakhtar Donetsk, que deveria ter voltado a competir no fim de semana passado, depois da pausa de inverno.

A jogarem desde 2014 fora da sua cidade, pertencente à região de Donbass, foco inicial da tensão entre Ucrânia e Rússia, os ‘mineiros’ viram partir também Edgar Cardoso, coordenador das camadas jovens, e Ricardo Cotovio, nutricionista da equipa principal.

A evacuação estendeu-se ainda à equipa técnica do italiano Roberto de Zerbi e a 13 jogadores estrangeiros, incluindo 11 brasileiros, cinco dos quais com passagem por Portugal: Pedrinho (Benfica), Ismaily (Estoril Praia, Olhanense e Sporting de Braga), Fernando (Sporting), Dodô (Vitória de Guimarães) e Marcos Antônio (Estoril Praia).

Dada a sua dupla nacionalidade, Júnior Moraes, com 11 partidas e um golo pela seleção ‘AA’ da Ucrânia, demorou mais tempo a voltar ao Brasil, até porque mais de 200 mil reservistas, dos 18 aos 60 anos, estão a ser mobilizados pelas Forças Armadas locais.

O secretário-geral do Sindicato Internacional de Futebolistas Profissionais (FIFPro), o neerlandês Jonas Baer-Hoffman, estimou a presença de 400 estrangeiros espalhados por vários clubes da Ucrânia, embora seja difícil determinar quantos ainda lá permanecem.

Do lado oposto ao conflito, as competições têm decorrido com aparente normalidade, embora os clubes e seleções russas não fiquem indiferentes à exclusão das provas internacionais imposta pelos principais organismos e federações de cada modalidade.

No principal campeonato de futebol, o Krasnodar reportou as saídas temporárias de oito jogadores estrangeiros, entre os quais o brasileiro Kaio Pantaleão (ex-Santa Clara), na sequência da saída da equipa técnica orientada pelo alemão Daniel Farke, que apenas durou sete semanas e não esteve em qualquer jogo oficial, devido à pausa de inverno.

O compatriota Markus Gisdol terminou uma efémera passagem pelo comando técnico do Lokomotiv Moscovo, da mesma forma com que o ex-internacional ucraniano Andriy Voronin se apressou a terminar as funções de treinador-adjunto no Dínamo Moscovo.

Esse exemplo foi seguido por Yaroslav Rakitskiy, que tinha renunciado à seleção da Ucrânia em 2019 e se desvinculou agora, por motivos familiares, do campeão russo Zenit, clube que tem como adepto confesso o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Yaroslav Hodzyur também rescindiu com o Ural Yekaterinburg, numa altura em que Ivan Ordets e Daniil Lesovoy (Dinamo Moscovo), Mark Mampasi (Lokomotiv Moscovo), Artem Polyarus (Akhmat Grozny), Dmytro Ivanisenya (Krylya Sovetov), Denys Kulakov (Ural) e Igor Kalinin (Rostov) são os restantes futebolistas ucranianos a alinhar na elite russa.

A guerra afetou igualmente um dos principais campeonatos europeus de basquetebol, desde logo com sete jogadores, entre os quais o russo-ucraniano Joel Bolomboy, a dizerem adeus ao CSKA Moscovo, clube popularmente ligado ao ‘exército vermelho’.

Esta decisão alargou-se a outros dois emblemas excluídos da Euroliga, o Zenit, já sem uma dezena de estrangeiros e o treinador espanhol Xavi Pascual, e o UNICS Kazan, privado de seis, sendo que o técnico lituano Kazys Maksvytis deixou o Parma Perm.

Já a andebolista internacional ucraniana Viktoria Borshchenko saiu da formação feminina do Rostov-Don, ao passo que Pavel Sivakov (INEOS), um dos dois ciclistas russos do WorldTour, teve o seu desejo de obter a nacionalidade francesa acelerado pela guerra.

Fora do âmbito das competições na Ucrânia e na Rússia, três andebolistas, o treinador espanhol Daniel Gordo e o seu adjunto, o luso Nuno Farelo, deixaram os bielorrussos do Meshkov Brest, excluído da Liga dos Campeões de andebol, tendo em conta o apoio prestado pelo regime ditatorial de Alexander Lukashenko ao ‘vizinho’ Vladimir Putin.

As autoridades de Kiev contabilizaram, até ao momento, mais de 2.000 civis mortos, incluindo crianças e, segundo a ONU, surgiram mais de 1,2 milhões de refugiados com a ofensiva militar da Rússia à Ucrânia, que se faz sentir na esfera do dirigismo desportivo.

Dono dos ingleses do Chelsea desde 2003, o magnata russo Roman Abramovich, que também tem a nacionalidade portuguesa, vai vender o campeão europeu e mundial de futebol, após confiar a liderança aos administradores da fundação de caridade do clube.

A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia, bem como o reforço de sanções económicas, políticas e comerciais e até desportivas para isolar ainda mais Moscovo.

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