Mundo

Moscovo começa a sentir peso das sanções com lojas ocidentais encerradas

(c) Direitos reservados
Partilhe esta notícia!

Muitos moscovitas têm percebido a dimensão da resposta internacional à invasão russa da Ucrânia ao verem as portas fechadas das grandes lojas onde costumavam, como todos os europeus, comprar roupa e mobília para a casa.

Zara, H&M, Ikea suspenderam as suas vendas no mercado russo da noite para o dia, baixando as cortinas de ferro nos vários centros comerciais da capital da Rússia.

Se durante 40 anos os moscovitas viveram muitos períodos de crise, escassez ou hiperinflação, as duas últimas décadas sob o poder de Vladimir Putin representaram uma era de prosperidade e acesso ao consumo.

Moscovo pode pensar que a Rússia vai recuperar o mais rápido possível das sanções internacionais impostas devido à invasão russa da Ucrânia, mas muitos moscovitas aguardam dias sombrios.

Anastassia Naoumenko, uma estudante de jornalismo de 19 anos, que trabalhava numa loja de roupas Oysho perdeu o emprego, porque a gigante espanhola Inditex fechou a loja.

Na segunda-feira, queria comprar produtos de maquilhagem, desde que pudesse pagar, pois o rublo perde valor após o ataque das sanções económicas e financeiras ocidentais.

“Ouvi dizer que os preços já quadruplicaram. […] Vai ser terrível”, disse a jovem, junto à entrada do centro comercial Metrópole de Moscovo.

Com a entrada em vigor no último fim de semana da proibição de qualquer informação considerada falsa pelo Kremlin, Anastassia Naoumenko também acredita que deve desistir do seu sonho de ser jornalista.

“Quem precisa da minha profissão com esta censura? Como se vive num mundo que se limita à Rússia?”, questiona.

Ioulia Chimelevitch, de 55 anos, vive das aulas particulares de francês. À frente a uma loja de animais, a mulher veio comprar comida ocidental para cães e gatos enquanto ainda há alguma em ‘stock’.

A russa conta que em 10 dias a maioria dos alunos cancelou aulas, muitos optando por abandonar a Rússia face à repressão e às dificuldades que estão por vir. O seu filho juntou-se a esses exilados no domingo.

“A minha vida entrou em colapso. Todos os luxos, aos quais nos habituamos nos últimos anos, produtos importados, roupas, já são coisa do passado”, diz.

Para Ioulia Chimelevitch, o mais complicado será a separação do filho.

“Mas o mais difícil não será apertar o cinto, mas a separação do meu filho, e um sentimento de culpa face ao resto do mundo”, concluiu.

Piotr Loznitsa, ‘designer’ de interiores de 47 anos, também viu a sua carteira de pedidos vazia em poucos dias. Mas o que mais a preocupa é o futuro dos filhos e o ‘stock’ de medicamentos importados para os seus pais idosos.

“Se não melhorar, vou tirar meus filhos daqui a todo o custo”, disse, referindo achar que os russos serão capazes de mostrar resiliência.

“No Irão também se adaptaram”, acrescentou Loznitsa.

Na artéria comercial Kouznetski Most, onde agora há lojas fechadas, Tamara Sotnikova, de 70 anos, insiste que não se importa com sanções.

“Tudo deve ser nosso, verdadeiro e natural! Na era soviética, o que tínhamos? Nada! E vivíamos normalmente, em silêncio”, salientou.

Vladimir Putin vem dizendo há vários anos que a retaliação económica deve ser uma oportunidade para a Rússia produzir os seus próprios bens.

Comentários

topo