Mundo

A funerária que ‘morreu’ na Ucrânia e uma escola a ressuscitar em Jitomir

(c) Direitos reservados
Partilhe esta notícia!

Em Jitomir, no centro da Ucrânia, a infantaria russa vai sendo mantida à distância, mas a guerra chegou na forma de bombardeamentos, que destruíram uma escola secundária, depósitos de gás e um mercado de rua que incluía uma funerária.

Se o alvo era um edifício administrativo do outro lado da rua, o ataque falhou-o por mais de duas centenas de metros, atingindo a ala norte do Liceu 25 de Jitomir, uma cidade que, antes da invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro, tinha 250 mil habitantes.

Muitos já fugiram da região, incluindo alunos deste estabelecimento de ensino, arrasado por uma bomba da aviação russa, no dia 03 de março, segundo um elemento das Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia que acompanhou a Lusa ao local. As atividades escolares já estavam encerradas desde o início da guerra.

Alguns residentes num prédio vizinho ficaram feridos com os estilhaços das janelas partidas, disse o mesmo elemento das Forças Territoriais. “Metade da escola ficou destruída”, lamentou o presidente da Câmara de Jitomir num vídeo transmitido no mesmo dia.

Três pisos no local do impacto desabaram, deixando a descoberto os corredores dos que ficaram de pé, salas de aulas e suas estantes ainda preenchidas com livros.

Num raio de cerca de 30 metros, até ao limite de uma igreja protestante que escapou incólume, o solo está coberto por uma camada de tijolos de cimento projetados pela explosão, misturados com centenas de manuais: de química, economia, matemática, ‘posters’ de aulas de biologia, e geografia, duas águias embalsamadas… ou o caderno de física do aluno Roman.

Este não foi o único local civil atingido pelas forças russas em Jitomir, a cerca de 150 quilómetros a oeste da capital, Kiev, e a sul da fronteira com a Bielorrússia, aliada de Moscovo.

No mesmo dia, o telhado de uma instalação militar foi parcialmente arrancado por outra explosão, que arrasou o quarteirão do outro lado da rua, reduzindo a escombros as estruturas precárias de algumas casas e do mercado que lá existia, e estilhaçou os vidros do que era uma maternidade vizinha. Foi uma das duas unidades hospitalares em Jitomir que a Organização Mundial de Saúde indicou, na quarta-feira, terem sido atacadas, entre um total de 18 no país.

Enquanto três homens vestidos de macaco azul reparam as ligações elétricas, na área abrangida pela explosão, do tamanho de um campo de futebol, não há nada a fazer, apenas iniciar as operações de limpeza e lamentar, de acordo com o Serviço de Emergência do Estado da Ucrânia, quatro mortos, incluindo uma criança.

Num ápice, um camião e um carro passaram a sucata, lojas e casas de tijolo e madeira ficaram reduzidas a nada, o pouco que sobrou do seu conteúdo não passa agora de objetos disformes e irreconhecíveis, à exceção de quatro caixões azuis e castanhos empilhados, coroas de flores em plástico e várias cruzes de Cristo que pertenciam a uma funerária falecida em 03 de março.

Segundo estimativas divulgadas na sexta-feira pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a guerra na Ucrânia já provocou pelo menos 564 mortos e 982 feridos civis, incluindo dezenas de crianças.

As autoridades ucranianas têm denunciado ataques reiterados das forças russas contra civis e crimes de guerra, incluindo o bombardeamento de uma maternidade em Mariopol, no sul do país, acusações refutadas por Moscovo.

Além dos bombardeamentos do Liceu 25 e do mercado em Jitomir, nos dias 7 e 8 de março a cidade estremeceu com dois outros ataques, ambos precisamente às 08:16, contra os depósitos de gás de uma empresa privada nos arredores.

Cinco dos depósitos de 10 mil metros cúbicos arderam e outro, ainda maior, explodiu, provocando um incêndio apenas extinto na sexta-feira e que ainda se encontra a fumegar.

Os dois ataques, realizados pela aviação russa, abriram quatro crateras junto à vedação em arame farpado das instalações, uma das quais com cerca de cinco metros de profundidade e mais de dez diâmetro. “Descobrimos o invólucro desta bomba, inequivocamente russa, e pesava 300 quilos”, refere um dos militares ucranianos que protege a unidade e que assistiu aos dois bombardeamentos.

Sobre a terra tornada negra pelo incêndio provocado pelas explosões, o soldado recorda o som da aproximação de dois bombardeiros russos imediatamente seguida pelas detonações, em duas passagens em cada um dos ataques. Havia sete pessoas no local. “Graças a Deus, estamos vivos”, exclama, no momento em que voltam a soar as sirenes em Jitomir.

Este é um som que os habitantes da região já se adaptaram nas duas últimas semanas, tal como o aterrador ruído da aviação de guerra russa, os bombardeamentos, que visaram ainda uma termoelétrica na quinta-feira, e a reação da antiaérea Ucrânia. Tal ainda como a presença permanente de militares e paramilitares e a proliferação de ‘checkpoints’, separados por poucos quilómetros em cada estrada, cada qual com diferentes disposições e aparato.

Parece já distante o dia em que Lusyk Sergei, um ‘motard’ que não revela a idade e que se dedicava à distribuição de água e refrigerantes, assistiu em Jitomir ao eclodir de uma guerra que muitos esperavam – e ele também.

Logo em 25 de fevereiro juntou-se às Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia, quando a proteção da ponte de Kiev, numa saída de Jitomir, era assegurada por dois polícias e um homem numa ‘scooter’ e agora é garantida por uma dúzia de homens de armas automáticas, pilhas de sacos de areia, tiras de espigões metálicos, obstáculos antitanque, pneus e blocos de cimento.

Sergei mantém o mesmo tipo de ocupação que tinha na vida civil, garantindo que nada falte aos militares e paramilitares que vigiam o tráfego na região, mas também àqueles que se encontram na frente de combate, a escassas dezenas de quilómetros.

À semelhança de muitas localidades da região, incluindo a capital, Jitomir tem o comércio e serviços encerrados na quase totalidade e uma grande parte da população fugiu. Mas outra apareceu no seu lugar, escapando da aproximação russa de Kiev e que encontrou, temporariamente, refúgio nesta cidade e arredores.

A saída de Kiev é, porém, um exercício de contorcionismo rodoviário, ignorando o GPS para evitar as posições russas, algumas das quais a poucas dezenas de quilómetros da capital. É ainda um teste à paciência, na apresentação constante de documentos, revistas aos automóveis, em controlos que, por vezes, estão apenas separados por menos de um quilómetro. Alguns têm pilhas de caixas de ‘cocktail molotov’, blindados e, em certas pontes e viadutos, avisos da presença de explosivos.

Ao longo de vastos campos de produções de cereais, muitas viaturas circulam com fitas amarelas para identificar membros das Forças de Defesa Territoriais, outras exibem bandeiras brancas e papéis colados nos vidros indicando, em ucraniano e em russo, que transportam crianças.

Em sentido contrário, há filas para os arredores de Kiev e muitos procuram abastecimento de bens e combustível, que secou em muitas bombas de gasolina, entretanto encerradas. Numa das que ainda resiste, a cerca de 100 quilómetros, a fila tinha mais de centena de carros.

Também são visíveis com frequência colunas ucranianas de camiões militares e de transporte de blindados e peças de artilharia, além de frases de incentivo à resistência, como “Zelensky de aço”, numa alusão ao Presidente do país, insultos ao seu homólogo da Rússia e respetivas forças armadas, sintetizados na já célebre frase, tornada num lema patriótico, dos militares do país que recusaram rendição no Mar Negro: “Navio russo, vão-se f…”

É esta frase, replicada em muros e até ‘outdoors’ à beira da estrada, que um paramilitar ucraniano voluntário em Jitomir diz usar como inspiração no dia-a-dia na mesma ponte de Kiev que jurou proteger.

“Eles estão perto, mas não acredito que cheguem aqui e, se chegarem, é como o navio russo…”, afirma, sorrindo, na certeza de que a guerra terá de ser feita um dia de cada vez, uma ideia sinalizada no cartaz da propaganda ucraniana colada a um bloco de cimento daquele controlo militar: “Os nossos olhos veem a manhã do dia seguinte”.

Comentários

topo