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“As pessoas são mais do que as armas” ucranianos a 15 quilómetros dos russos

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De civis a paramilitares de um dia para o outro, cerca de dez ucranianos vigiam uma estreita passagem nos arredores de Kiev, com a ofensiva russa a apenas 15 quilómetros, admitindo que a situação é difícil, mas “sob controlo”.

A bandeira ucraniana tremula no ‘checkpoint’ instalado perto de um bairro residencial no distrito de Zavorichy. A entrada para a estrada que aquela dezena de homens controla conduz diretamente ao centro de Kiev, a cerca de 15 quilómetros. No sentido contrário, e, à mesma distância, encontram-se as posições russas.

A manhã na metrópole ucraniana foi acompanhada por estrondos regulares de explosões e alguns eram provenientes desta zona, a somar ao rebentamento de um míssil num prédio residencial, este ainda mais perto do ‘checkpoint’ (menos de dez quilómetros), e que provocou dois mortos.

“A situação é difícil, mas está sob controlo”, afirma Valery Ribachov, coronel na reserva do Exército ucraniano de 53 anos, que a invasão russa, em 24 de fevereiro, chamou de novo ao serviço de defesa do país. Tem uma irmã casada com um português chamado Maurício, residentes na Alemanha, e que têm acolhido refugiados.

Ribachov é agora comandante da unidade de defesa territorial das dez localidades deste distrito, composta por civis que se registaram logo nos primeiros dias de guerra e a quem foram entregues armas depois de uma formação rápida. Cerca de uma dezena deles, equipados com camuflados, armas automáticas e coletes antibalísticos, onde guardam carregadores e granadas de mão, estão colocados neste controlo instalado na orla de um bosque de pinheiros, sob uma ponte ferroviária.

A entrada da estrada estreita foi ainda mais apertada por dois grandes montes de areia, que se erguem atrás de barreiras de betão, cobertas por redes verdes ou camufladas, algumas de fabrico artesanal na vasta onda de voluntariado que atravessa a Ucrânia há mais de duas semanas. Uma centena de metros mais à frente, foi montado um segundo controlo, este do Exército.

Antes da guerra, viviam neste distrito acima de 200 mil pessoas e uma grande parte fugiu para outras regiões ou para fora do país, mas algumas dezenas de milhares ficaram, ressalva Valery Ribachov. Entre estas, muitas aderiram às Forças de Defesa Territoriais, em número que não quer especificar, mas “mais do que suficiente” para constituir um batalhão: “As pessoas são mais do que as armas”.

O antigo coronel destaca que tem sido esta resistência que mantém as tropas de Moscovo perto, mas sem avanços, assinalando que os civis, tornados paramilitares sob o seu comando, “têm como única motivação” continuar a impedir a passagem do inimigo para o centro de Kiev.

Desde 24 de fevereiro, a cada dia que passa, “acreditam cada vez mais na vitória”, prossegue, e assegura que não lhes falta nada: “Temos armas, comida, medicamentos, veículos… e muitas surpresas reservadas para os russos”.

O antigo oficial foi veterano na crise em Donbass, em 2014, mas diz que não quer nem pode falar muito sobre o assunto, apenas referir que, há oito anos, a guerra começou “muito mais devagar” e com menos ataques aéreos: “Agora, foi como no início da II Guerra Mundial. Atacaram de repente, com bombardeamentos e atingiram cidades e civis”.

Mas também encontra semelhanças, ao prever que esta será “uma guerra longa”, a não ser que europeus e NATO fechem o espaço aéreo na Ucrânia, e que terá um desfecho vitorioso, tanto na frente militar como na política. No entanto, ainda que seja obtido um entendimento entre Kiev e Moscovo, não faz parte dos seus planos arrumar a arma: “Não se pode confiar nos russos”.

Uma grande parte do movimento do ‘checkpoint’ é justificado por famílias que permaneceram nas zonas mais afetadas pela guerra, na direção da fronteira com a Bielorrússia e que continuam a fugir na direção de Kiev.

Como demonstração aponta o exemplo de um carro cinzento acabado de chegar. Vem crivado de balas, sem janelas, de Zazimya, 40 quilómetros a norte, e traz três ocupantes. Uma delas é Viktoria, 27 anos, que descreve fortes confrontos, no dia 07 de março, entre as tropas ucranianas e russas.

A sua casa ficou destruída e, desde então, estabeleceu os seus planos de chegar a Kiev. Ultrapassado o ‘checkpoint’ das forças territoriais e o outro logo atrás, dos militares, o seu primeiro objetivo será alcançado. “A partir daí, não sei”.

Os estrondos continuam audíveis ao princípio da tarde em Zavorichy, mas menos frequentes. Todos os carros são parados e revistados e cada passageiro é obrigado a exibir documentos, venha de onde vier, atendendo às denúncias de proliferação de elementos pró-russos infiltrados na zona, por vezes, usando camuflados com as mesmas braçadeiras amarelas ou azuis que identificam as forças territoriais.

Junto de um toldo, onde um voluntário serve aos paramilitares café, chá e sandes fornecidos pela comunidade, junta-se um novo grupo acabado de chegar. São mais deslocados do norte, entre os quais Olga e a mãe, Svetlana, provenientes de Chernihiv, uma cidade próxima da Bielorrússia.

“Tem sido um dos lugares mais atacados desta guerra, constantemente bombardeada, sem eletricidade, sem aquecimento… e faltam alimentos”, descreve Olga, professora de inglês de 41 anos. No primeiro dia da ofensiva, ainda fez uma aula ‘online’, mas, nessa altura, “não era clara a dimensão do que estava a acontecer”. Logo a seguir, ficou sem comunicações, sem escola e sem alunos e, por fim, sem casa.

“Vivemos este tempo todo num abrigo”, conta Svetlana e, apesar de herdeira de um passado de violência na Ucrânia, aos 74 anos, esta é a primeira guerra que presencia. Uma guerra que, diz, “os ucranianos nunca pensaram que pudesse acontecer”, lamenta. “Mas devíamos”, corrige a filha: “O que os russos fizeram nos últimos oito anos em Lugansk, Donetsk e na Crimeia foi suficiente para que estivéssemos avisados”.

Estas duas deslocadas sentem-se agora em segurança, ainda que seja instável e incerta a situação em Kiev, mas suficientemente afastadas do palco das batalhas, e onde, apesar da carência de alguns produtos e da subida de preços, os supermercados continuam abastecidos. Depois, também elas estão sem destino: “Não temos familiares em lado nenhum.

São estes deslocados, mas também militares ucranianos feridos na frente de combate e ainda civis vítimas da queda de fragmentos de ‘rockets ou de vidros estilhaçados pela energia das explosões que fazem de Zavorichy uma passagem diária obrigatória para Sergei, 49 anos, um paramédico que se voluntariou para prestar auxílio logo no primeiro dia de guerra.

Em 24 horas, com ajuda de outros voluntários, transformou uma carrinha numa ambulância improvisada, onde assegura ter tudo o que precisa para prestar primeiros socorros ou realizar reanimações. Faz isto sozinho há duas semanas e meia.

Como os militares ou os elementos das forças territoriais, reserva-se a não detalhar operações de resgate em que esteve envolvido, limitando-se a confirmar a “elevada insegurança” que se vive nos arredores da capital. Tem dois filhos pequenos que permanecem na cidade e nem a proximidade das forças russas é suficientemente persuasiva para a família fazer as malas: “Para onde? Toda a Ucrânia é um perigo neste momento”.

Ao mesmo tempo, também Sergei assinala “uma motivação em níveis muito, muito altos”, quer dos militares, quer dos civis que os apoiam e que o paramilitar Vitaly Krupenko, 37 anos, faz questão de confirmar.

“É impossível entrar em Kiev. Tivemos 20 dias para nos preparar e estamos a cada vez mais fortes”, declara este outro antigo civil chamado a desempenhar funções de comando nas forças territoriais do distrito de Zavorichy, deixando clara a determinação de que deste ponto os russos não passarão.

“Ninguém da Rússia vai invadir a nossa terra. Vamos defender este lugar até ao fim”, insiste, com a arma a tiracolo. Durante o período em que esteve no ‘checkpoint’ nunca tirou o indicador do gatilho.

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