João Martins

Opinião. Atiães: um território, uma comunidade e identidade

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Confrontados com a possibilidade da construção de um parque industrial na nossa terra, não podemos descartar a reflexão sobre o impacto que tal empreendimento possa ter no nosso património. Neste caso, não falamos do nosso património histórico edificado, mas num património muito mais amplo que abarca o meio ambiente que, felizmente, temos conseguido preservar e que devemos procurar valorizar e tirar o melhor proveito dele. Não é possível conservar a qualidade do nosso ambiente – água, ar e solo – com tal empreendimento, que constitui uma ameaça a esses três fatores que dão qualidade de vida aos nossos habitantes e a todos os que, na nossa terra, procuram um tempo e um espaço mais saudável. Por ser uma zona alta e nobre de Atiães, facilmente podemos perceber a afetação que pode provocar nas zonas baixas, muito concretamente nas zonas ribeirinhas que temos. Daí que é justo dizer que todo o nosso território ficará, direta ou indiretamente, afetado de forma negativa.

Falamos, pois, de uma questão também de saúde e de qualidade de vida, como algo que nos carateriza. Na verdade, Atiães torna-se um refúgio para todos aqueles que convivem diariamente com o betão e o alcatrão das cidades, onde muitos dos nossos conterrâneos ganham o pão de cada dia. Não podemos ser insensíveis ao ponto de lhes retirarmos os dons naturais que a nossa terra tem e proporciona a todos os que se sentem acolhidos. A criação de uma zona industrial em Atiães resulta numa ameaça ao acolhimento de tantos – os nossos emigrantes e não só – que nos visitam. Salvar Atiães é muito mais que uma questão política ou económica, mas sim uma questão humanitária, da qual todos os habitantes se devem sentir responsáveis e se devem comprometer por dar qualidade de vida às gerações futuras.

Aquilo a que muitos chamam de “atraso” na nossa terra tem muito mais potencial do que aquele que possa parecer. Como já se referiu, Atiães tem como identitário o facto de ser refúgio para aqueles que vivem embrenhados pelo betão e pelo alcatrão das cidades. A nossa localização geográfica acaba por ser um ponto a favor para que a nossa terra se torne um refúgio para quem pretenda descansar dos seus trabalhos quotidianos. Reparemos que a nossa terra é farta de paisagens quase idílicas, que nos passam tantas vezes despercebidas, pela forma rotineira com que passamos pelas nossas ruas e pelos nossos lugares.

Fica o desafio para que, quem diz conhecer Atiães, explore as zonas menos frequentadas e verá facilmente que há muito mais para descobrir e trabalhar em Atiães do que uma zona industrial. É nisso que Atiães tem de apostar, para não se falar na fixação da população. Com esta ameaça que nos chega, chega também a falácia de que a zona industrial pode fixar a população. Certamente que quem concorda com esta afirmação não deve conhecer o potencial que a nossa terra tem e parece muito lógico, mesmo que enganador, que tal empreendimento suscite nas gerações mais novas a vontade de se fixarem na sua terra. Mas como será possível que se fixem se não há facilidades de construção? Eis a questão que tantos devem utilizar como exame de consciência e que deve orientar a reflexão atual e futura sobre o futuro da nossa terra. O que é certo é que um parque industrial na nossa terra não passa de uma pílula dourada que nos querem impor, sem o consentimento da população. Fica ainda a questão sobre que jovens é que temos e que se querem fixar numa terra asfixiada pelas consequências de uma zona industrial, como já se referiu acima.

Não estão os nossos jovens e a gerações mais jovens sensíveis com as questões ambientais e com a sua qualidade de vida? Para quem não sabe o que é viver constantemente cercado de betão e alcatrão, parece ser muito fácil destruir um património natural que nos é reconhecido e que pode tornar a nossa terra um local acolhedor para quem pretende descansar e recarregar energias.

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