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Pedrógão Grande, 5 anos depois, na floresta está quase tudo por fazer

(c) Semanário V
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Portugal assistiu a algumas melhorias no combate aos fogos, cinco anos após o grande incêndio de Pedrógão Grande, mas vários especialistas alertaram que na floresta está quase tudo por fazer.

Cinco anos após a tragédia de 17 de junho de 2017, especialistas que analisaram a resposta àquele incêndio e avançaram com recomendações consideraram que o sistema de combate registou melhorias, num processo que mesmo assim os deixou com algumas reservas.

“A grande proposta da Comissão Técnica Independente [CTI] acabou por ser cumprida, pelo menos formalmente, com a criação da AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais], cuja constituição obedeceu muito de perto àquilo que tinha sido proposto”, afirmou à agência Lusa o investigador Joaquim Sande Silva, que fez parte daquele organismo responsável por analisar o incêndio de Pedrógão Grande, assim como do Observatório Técnico Independente [OTI], criado posteriormente.

O também docente da Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC) realçou que, apesar da criação da AGIF, é “muito discutível” dizer se os objetivos “estão ou não a ser cumpridos”.

Para isso, apontou para vários problemas: não se avançou muito na profissionalização do combate a incêndios, ainda não foi posto em prática o plano nacional de formação no combate aos incêndios, há organizações que combatem fogos e “que não se dão entre si” e “não houve coragem política para fundir agências e organizações” do sistema de proteção civil.

Sobre esse último aspeto, Joaquim Sande Silva considerou que as alterações levaram a uma ainda “maior complexidade do sistema”, apontando para um dos relatórios produzidos, cuja capa ilustra isso mesmo, com um “emaranhado” de ligações entre diferentes instituições.

O docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Paulo Fernandes também considerou que “não faz muito sentido criar-se uma estrutura nova [AGIF], mantendo todas as outras tal qual como existiam”.

“O sistema está melhor, mas há um caminho a percorrer. O sistema parece estar mais compacto, mais coeso e a população mais sensível para o problema e isso nota-se na redução do número de ignições, mas também a meteorologia tem ajudado”, notou, por seu turno, o investigador Xavier Viegas, que coordenou um relatório sobre Pedrógão Grande.

Para os três especialistas, que fizeram parte do Observatório Técnico Independente, que surgiu em 2018 e que cessou funções em 2021, há uma unanimidade em considerar que é na floresta que, passados cinco anos, menos mudanças se veem.

“É incompreensível. Quando vou àqueles territórios, fico desolado porque o que encontramos é tudo o que ardeu há cinco anos, com a regeneração de eucaliptos e acácias. Está ali um matagal, a preparar-se para desgraças futuras. Oxalá que não, mas não foi aproveitado o impacto de um evento como Pedrógão Grande teve para mudar as mentalidades e transformar aquela realidade”, lamentou Xavier Viegas.

Sinalizando a importância de instrumentos como as Aldeias Seguras ou o Condomínio de Aldeias (que prevê a gestão de combustível num perímetro de 100 metros em torno das localidades), o investigador considerou que esses instrumentos “deveriam ter uma projeção maior”, algo que os restantes especialistas corroboraram.

Quando questionados sobre as Áreas Integradas de Gestão de Paisagem (AIGP), medida que pretende atacar o problema da gestão florestal de territórios marcados pelo minifúndio, tanto Paulo Fernandes como Joaquim Sande Silva reconheceram as boas intenções das propostas, mas ambos disseram temer que a medida tenha o mesmo efeito prático das Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) criadas em 2005, que foi “zero”.

“Tenho muitas dúvidas da ideia de que vamos mudar a paisagem do país, arranjando um orçamento largamente insuficiente, achando que, de um momento para o outro, os agentes locais se mobilizam para essa transformação e que a conseguimos manter ao longo do tempo”, criticou o investigador da ESAC.

Já para Xavier Viegas, o programa surgiu tarde, “mas mais vale tarde que nunca”.

“O ideal seria termos planos mais gerais e depois concretizar estes. Pode-se estar a andar ao contrário, mas tudo o que se fizer para a redução do risco é bem-vindo”, constatou, sublinhando a urgência em implementar esses projetos para que haja exemplos para os quais se possa olhar e definir caminhos.

Por seu turno, Paulo Fernandes considerou que há também “muitos condicionalismos estruturais” no terreno que será difícil alterar “no curto ou médio prazo” e que até se poderão agravar no futuro, com o despovoamento e abandono do interior.

“A remuneração de serviços de ecossistemas é um caminho em que estamos muito no início, mas o caminho seria por aí, porque de outra forma é extremamente difícil”, referiu, defendendo também um aumento da floresta pública, que em Portugal é residual.

Ao olhar para o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), Joaquim Sande Silva congratulou-se com o facto de haver “pela primeira vez um orçamento avultado e um horizonte temporal para conseguir pôr Portugal ao nível de qualquer país civilizado, que é saber a quem pertence cada metro quadrado do seu território [o projeto do cadastro simplificado]”.

No entanto, o PRR também mereceu críticas por parte do investigador de Coimbra, que considerou que o investimento se centra “na redução de combustíveis e na criação de faixas de gestão de combustíveis”.

“Acho tudo isso um grande disparate. Quando removemos combustíveis, estamos a fazer algo que é rapidamente reversível pela ação da própria natureza. Rapidamente aquela vegetação é reposta e não vai haver dinheiro eterno para manter os combustíveis com baixas cargas”, observou.

Ao invés disso, dever-se-ia apostar numa política “de restauro de florestas de folhosas nativas, que comprovadamente têm um efeito vantajoso na prevenção de incêndios”, defendeu.

Esse plano, frisou, “seria uma pedrada no charco”, enquanto lamentou que os sucessivos governos sejam avessos “a estratégias de trabalhar com a natureza de forma lenta”.

“O que se quer é arrasar tudo com bulldozers e está feito e mostra-se para a imprensa”, registou.

As mudanças demoram a surgir no terreno, mas isso não é surpresa para investigadores que há muitos anos acompanham a área.

“Se achava que alguma coisa iria mudar? Diria na altura o mesmo que vou dizer agora: não esperaria grandes mudanças ou ilusões”, afirmou Paulo Fernandes.

Com Agência LUSA

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