Ponte de Lima

Vaca das Cordas volta hoje a Ponte de Lima com defensores dos animais revoltados

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O touro que irá correr as ruas de Ponte de Lima, esta quarta-feira, durante a tradição secular da Vaca das Cordas, já está ‘alojado’ no Alto Minho com uns imponentes 500 quilos. No dia 15 de junho a “Vaca das cordas” é embebida em vinho verde na igreja matriz de Ponte de Lima e depois anda pelas ruas até ao areal.

Tradição secular

A véspera do Corpo de Deus é celebrada, em Ponte de Lima, com a corrida da Vaca das Cordas, numa acção coordenada pela Associação dos Amigos da Vaca das Cordas, com o apoio do Município de Ponte de Lima. Trata-se de uma das mais antigas tradições limianas, que atrai à Vila de Ponte de Lima milhares de forasteiros de todos os pontos do país, e até da vizinha Espanha, que invadem o Centro Histórico e o areal do rio Lima para participarem nesta festividade, que mostra a alma e a tradição do povo limiano.

No seu livro A Vaca das Cordas em Ponte de Lima (2006), Luís Dantas refere que o documento mais antigo que regista o sentido que os nossos antepassados atribuíram à corrida da Vaca das Cordas parece ser o Código de Posturas Municipais de 1646. Porém, de acordo com a Ata de 11 de Julho de 1604 do Livro das Vereações (de 1602 a 1605), conservada no Arquivo Municipal de Ponte de Lima, recentemente divulgada na obra “P’ra Que Viva Ponte de Lima! Terra de Tradições”, de Amândio de Sousa Vieira, editada em 2017 pelo Município de Ponte de Lima, esta tradição já existia naquele ano de 1604.

Ainda segundo Luís Dantas, em Ponte de Lima pode dar-se o caso de não se ter distinguido vacas de touros, nem as índoles das corridas (as de praça, dentro de canceladas ou em circo tauromáquico, e a das cordas), sendo possível fixar a tradição da Vaca das Cordas muito antes do século XVI.

Seja como for, umas vezes com vacas, outras com touros, como acontece atualmente, esta tradição secular manteve ao longo dos tempos a designação de Vaca das Cordas, assumida pela linguagem popular e presente na memória coletiva, sendo única e distintiva a nível nacional.

A corrida começa na rua do Arrabalde, ao fim da tarde da véspera do Corpo de Deus, seguindo em direção ao Largo da Matriz, onde o touro é preso ao gradeamento de ferro da janela da Torre dos Sinos para o tradicional “banho” de vinho tinto, lançado sobre os cornos e o lombo do animal, cumprindo-se também a tradição de dar três voltas rituais à Igreja Matriz. A “corrida” prossegue pelas ruas do Centro Histórico, até ao areal, onde milhares de pessoas tentam “fintar” o animal ou simplesmente assistir a este espetáculo popular.

Atualmente, esta tradição cumpre-se em Ponte de Lima num jogo de respeito. Homens e touro envolvem-se num diálogo de força e coragem, de desafio e de fuga, de dor e sofrimento mútuo. Ninguém sai a perder deste desafio, porque de um desafio se trata: à força do touro, o homem joga a sua inteligência; à falta de sensatez do homem, o touro cumpre o que se espera de si.

Chegou a “Vaca das Cordas” a Ponte de Lima com mais de 500 quilos

Na procura das origens e sentidos da Vaca das Cordas, alguns autores, como Miguel Roque dos Reys Lemos, vão buscar a sua simbologia aos rituais egípcios, enquanto outros, como Luís Dantas, vão buscá-la aos romanos, com os seus cultos dionisíacos, os préstitos a Baco, a adoração a Ceres.

Embora subsistam alguns vestígios ancestrais dessa simbologia, o que está verdadeiramente presente na corrida da Vaca das Cordas é o divertimento, o riso, a afirmação da coragem e o ridículo da insensatez.

Durante a noite, a animação dos bares é o foco de atenção dos mais novos, que se divertem ao som da música, fazendo deste momento um elemento indissociável da tradicional comemoração da Vaca das Cordas.

A tradição cumpre-se ainda, durante a noite, com a confeção dos tapetes de flores nas ruas do Centro Histórico de Ponte de Lima para a procissão do Corpo de Deus. As ruas cobrem-se de tapetes floridos que refletem o empenho e a devoção dos moradores que, movidos pela fé, trabalham incansavelmente toda a noite, enchendo de cor e formosura as ruas que formam o itinerário da procissão.

Defensores dos animais revoltados com tradição

Nos últimos anos as associações de defensores do animais começam a levantar voz contra a tradição da ‘Vaca das Cordas’ alegando o sofrimento do animal durante a “corrida”.

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