Braga

Braga. Reviravolta no caso do homicídio de Galiano

Carlos Galiano morreu no Hospital de Braga dois dias após os tiros / Luís Teixeira ("Max"), já aquando da sua detenção pela PJ de Braga © Semanário V
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O caso do homicídio do jovem amarense Carlos Galiano, cometido por um seu conterrâneo, Luís Teixeira (“Max”), amigos de longa data, desde que ambos jogavam futebol nos mesmos clubes, em Vila Verde, teve agora uma reviravolta, com a detenção nos últimos dias em França, do segundo suspeito do crime, Diogo Azevedo, estando o início do julgamento ainda por marcar no Tribunal de Braga.

Carlos Galiano, de 24 anos, foi assassinado a tiro, à queima-roupa, na madrugada do feriado nacional de 5 de outubro de 2021, quando se encontrava na esplanada de um café, na zona do Fujacal, em Braga, alegadamente por Luís Teixeira (“Max”), com o apoio de Diogo Azevedo, por o autor dos tiros suspeitar que a vítima o teria “chibado” às autoridades, por tráfico de droga na zona do Vale do Homem.

O atirador e a vítima, depois de jogarem futebol, na infância, tinham sido colegas na Escola Profissional Amar Terra Verde (EPATV), em Vila Verde, sendo ambos naturais de Amares, Carlos Galiano de Lago e Luís “Max” de Bouro Santa Maria, frequentando agora a zona do Fujacal, em Braga, que foi palco do crime, meses depois já do julgamento de ambos por tráfico de droga de menor gravidade.

A 21 de Dezembro de 2020, Carlos Galiano foi condenado a dois anos e quatro meses de prisão e “Max” a um ano e meio, com ambas as penas suspensas, mas apesar de Galiano ter sido um dos sete presos preventivos (libertados devido à pandemia mundial Covid-19), ao contrário de “Max”, este último convenceu-se que o Galiano o teria “traído”, isto é, “por ter falado de mais” às autoridades policiais.

Segundo as investigações da Polícia Judiciária de Braga, a morte abrupta de Carlos Galiano terá sido precipitada pelo facto de Diogo Azevedo o ter molestado, momentos antes do homicídio, recebendo um soco em troca, pelo que sem coragem de continuar a enfrentar Carlos Galiano, foi chamar Luís Teixeira (“Max”) por saber que este já andava para se vingar da vítima, devido à alegada “chibadela”.

“Max” apareceu empunhando uma pistola, com o calibre de 6.35 milímetros, acompanhado por Diogo Miguel Azevedo, disparando de imediato contra Carlos Galiano, atingindo-o logo gravemente, quer na região do abdómen, quer numa vértebra cervical, onde ficou alojado um dos dois projeteis, acabando por falecer dois dias depois na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Central de Braga.

Tribunal de Braga aguarda extradição

Segundo apurou o Semanário V, o juiz-presidente da Instância Central Criminal de Braga, após trocar impressões com o procurador da República, aguarda pela extradição de Diogo Miguel Azevedo, de 24 anos, sendo necessário assegurar todas as garantias de defesa, a começar pela sua constituição como arguido, bem como o conhecimento da acusação e das diligências da fase de instrução do caso.

Enquanto Luís Teixeira (“Max”), que entretanto residia na freguesia de São Vicente, em Braga, depois de ter atirado a arma do crime para o rio Este, a poucas dezenas de metros do local do homicídio, cometido na Rua Monsenhor Airosa, em Braga, se entregou no dia seguinte à PSP, Diogo Miguel Azevedo estava a monte desde então até ter sido preso a semana passada na cidade Limoges, em França.

Diogo Azevedo foi encontrado a vaguear naquela cidade francesa, pela polícia, dando a entender que se encontraria embriagado, tendo sido conduzido à esquadra, onde se constatou ser alvo de um mandado de detenção europeu, aguardando pelo processo de extradição, que segundo tudo o indica, será concretizada nas próximas semanas, a ponto de ser julgado, em Braga, já a partir do mês de setembro.

O processo judicial que conduziu a esta tragédia afinal não teve as repercussões penais que inicialmente se chegou a admitir, ficando todos os 16 arguidos com penas suspensas, além da prisão preventiva que tiveram, entre os outros sete suspeitos, Carlos Galiano, mas que “Max” não teve, mantendo-se sempre em liberdade, daí nunca se ter percebido como “Max” pensou que poderia ter sido “chibado”.

A chamada rede de tráfico de droga do Vale do Homem foi julgada na 1ª Instância Criminal, em Braga, envolvendo 16 arguidos, cinco dos quais de Amares, para além de quase 200 testemunhas, demorando o seu começo, por ser adiado devido à pandemia da Covid-19, após as buscas, em Amares, Terras de Bouro, Vila Verde, Póvoa de Lanhoso, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Famalicão e no Porto.

A investigação criminal esteve a cargo do Destacamento da GNR da Póvoa de Lanhoso e incidiu num grupo que se movimentava principalmente em Amares e Braga, sendo realizadas onze buscas domiciliárias que resultaram na apreensão de 2.654 doses de haxixe, 100 doses de cocaína, 13 telemóveis, seis munições, cinco automóveis, quatro tablets, quatro computadores e 4.647 euros em dinheiro.

Segundo foi possível apurar, parte das transações de droga seriam realizadas na vila de Amares, mais concretamente nas imediações da Escola Secundária de Amares e do Loteamento Quinta do Sol, na freguesia de Figueiredo, sendo que os cinco jovens do concelho de Amares, residiam nas freguesias de Lago, de Ferreiros e de Santa Maria de Bouro, conforme ficou provado no Tribunal de Braga.

Libertados por causa da Covid

Carlos Galiano tinha sido dos sete arguidos libertados por causa da Covid-19, por decisão da juíza-presidente, Marlene Rodrigues, magistrada que curiosamente já trabalhou na Direção Geral dos Serviços Prisionais, antes de ter enveredado pela judicatura, alegou o conhecimento dessa realidade e o da Cadeia Regional de Braga em particular, para concluir que tal espaço é já de si concentracionário.

“O Estabelecimento Prisional de Braga, que conhecemos à semelhança, aliás, da quase totalidade das cadeias portuguesas, não permite o distanciamento recomendado pela Direção Geral de Saúde e a Organização Mundial de Saúde, isto em decorrência da sobrelotação das prisões, de consequências gravosas caso ocorra foco de contaminação”, referiu a magistrada, aquando da libertação dos arguidos.

A juíza fundamentou a medida por “ter sido declarada pela Organização Mundial de Saúde a pandemia por SARS-CoV-2 (Covid-19), a par do estado de emergência em que nos encontramos e que, com elevada probabilidade, será prolongado a partir dos próximos dias, além do apelo das Organização das Nações Unidas efetuado no tocante à população prisional, em particular entre os mais vulneráveis”.

O advogado João Ferreira Araújo, que defendia um dos arguidos em prisão preventiva, elogiou a libertação dos sete jovens reclusos, considerando “estar bastante sensibilizado com esta iniciativa, da senhora juíza, pois apesar de ser bem conhecido o seu humanismo, provou uma vez mais que tem a necessária ponderação, tal como os outros dois juízes e também a senhora procuradora da República do Ministério Público, porque a libertação dos arguidos não impedirá que a seu tempo se faça a devida justiça também neste processo”.

Carlos Galiano também jogava futebol

Carlos Alexandre Galiano Oliveira, nascido a 11 de janeiro de 1997, em Lago, Amares, não tinha antecedentes criminais e era natural de Angola, país de naturalidade da mãe, tendo com dois meses de idade vindo para Portugal e fixado o agregado familiar a residência no concelho de Amares, mais concretamente em Lago, uma freguesia que faz fronteira com Vila Verde e Braga, tendo desde sempre ajudado o pai na venda de peixe fresco e igualmente nas atividades domésticas, auxiliando igualmente os seus dois irmãos mais novos.

Depois de concluir o 9.º ano de escolaridade aos 14 anos, passou a frequentar o curso de design e equipamentos na Escola Profissional Amar Terra Verde, em Vila Verde, que lhe deu equivalência ao 12.º ano, após o que, ingressou no curso técnico superior profissional de gerontologia no Instituto superior de Saúde do Alto Ave (ISAVE), em Amares, que deixou durante o segundo ano, jogando também futebol, nas equipas de Lago, Vilaverdense, Amares, Ponte da Barca, Bairro da Misericórdia, São Mamede de Este e Terras de Bouro.

“Max” já trabalhou na Bélgica e França

Luís Miguel Fernandes Teixeira, nascido a 6 de maio de 1998, em Bouro Santa Maria, Amares, atualmente em prisão preventiva, em Braga, estudou até concluir o 9.º de escolaridade, em Amares, ingressando posteriormente na Escola Profissional Amar Terra Verde, em Vila Verde, onde começou um curso de cozinha, que não concluiu, por abandono, pelo que não obteve a equivalência ao 12.º ano.

“Max” também enveredou cedo pelo trabalho e depois de ajudar a mãe numa padaria, em 2019, na procura de melhores condições socioeconómicas, foi trabalhar para a Bélgica, onde esteve cerca de três meses, em precárias condições contratuais e de subsistência, mas uma semana após o regresso a Portugal, através de uma empresa de recrutamento, foi trabalhar como armador de ferro, em França.

Em França, o arguido trabalhava numa empresa de construção civil francesa e já não dependendo economicamente da mãe, pois em França ganhava mais de dois mil euros mensais, sendo ele ultimamente quem a apoiava no pagamento das despesas do agregado, por a progenitora se encontrar já profissionalmente inativa, depois de uma intensa vida de trabalho, especialmente na área da panificação.

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