Vila Verde

O atribulado rapto que só acabou em Vila Verde

Aceitou sequestro para ganhar €1.200 que não recebeu © Semanário V
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Uma mulher suspeita de encomendar o rapto do próprio companheiro, movida por ciúmes por este “contratar putinhas pelo instagram”, está a ser julgada pela autoria moral do sequestro, um crime atribulado, já que a vítima se atirou do carro em alta velocidade e o grupo, constituído por duas mulheres e cinco homens, queimou depois a carrinha do raptado, na Praia Fluvial de Cabanelas, em Vila Verde.

João Romero foi até ao Alentejo assaltar a própria mãe

O alegado líder do grupo, João Romero, de 23 anos, que recentemente tinha cumprido o serviço militar, não recebendo os 1.200 euros prometidos, já que não levou o rapto até ao fim, foi então ao Alentejo assaltar a quinta da própria mãe, soltando os cavalos e os burros, para esta correr atrás dos animais e furtou-lhe uma carrinha nova com eletrodomésticos, que trouxe para Braga e vendeu ao desbarato.

João Romero também está a ser julgado porque, conforme confessou, deslocou-se desde Braga a Nisa, onde mora a mãe, soltando-lhe os cavalos e os burros da cerca, aproveitando a confusão para furtar eletrodomésticos, com a ajuda de outros arguidos, todos eles idos desde Braga até ao Alentejo, para furtar os bens mais valiosos da mãe de João Romero, que confessou ter capitaneado o assalto contra a sua própria progenitora embora, numa primeira fase, em telefonemas para a mãe, negou que tivesse ido a Nisa cometer esse assalto.

Paulo Costa, de 39 anos, operário metalúrgico, residente em Guimarães, acabava de sair de mais um turno noturno, passou pela Policia Judiciária de Braga, por ser o percurso mais direto para o parque de estacionamento do supermercado Continente, de Maximinos, em Braga, dirigia-se para casa, mas quando chegava perto do Parque Industrial de Azurém, foi raptado pelo grupo, que ia em dois carros.

Liliana Alves, de 42 anos, companheira de Paulo Costa, na madrugada de 7 para 8 de outubro de 2020, viu executar um plano que na acusação do Ministério Púbico, terá motivos passionais, encomendando, alegadamente, a João Romero que “desse uma lição” ao seu companheiro, sovando-o, deixando-o nu, abandonado, ao relento, na Serra do Gerês, trazendo-lhe a carrinha de volta para Guimarães.

O caso foi depois investigado pela Secção Regional de Combate ao Terrorismo e Banditismo, da Polícia Judiciária do Norte, sediada no Porto, que depois de fortes resistências, de um magistrado do DIAP/MP de Guimarães, conseguiu mandado de detenção, para a alegada mandatária do rapto, Liliana Alves, de 42 anos, por encomendar essa “lição”, contra o seu próprio companheiro, Paulo Costa.

João Romero, o principal arguido entre os executantes do rapto e um dos dois presos preventivos deste caso, fez uma confissão integral e sem reservas, dizendo-se “coagido” pela mulher da vítima a cometer o rapto, o que disse aos juízes durante o julgamento, em Braga, “só ter aceite porque tive relações sexuais com ela e no fim disse que se queixava de eu a ter violado se eu não raptasse o companheiro”.

Interrogado pelo Tribunal Coletivo, na ausência dos outros arguidos, João Miguel Romero Pereira, disse que ao ficar sem o pagamento do rapto deixado a meio, foi então propositadamente a Nisa assaltar a casa da própria mãe, “para realizar dinheiro”, levando consigo parte dos elementos que participaram no sequestro frustrado entre Maximinos (Braga), Azurém (Guimarães) e Cabanelas (Vila Verde).

João Romero disse “ter conhecido a Liliana através de uma amiga comum, a Bruna, aqui de Braga, a partir do momento em que nos conhecemos, a Lili [Liliana] estava sempre a pressionar-me para eu dar uma ‘lição’ ao seu companheiro, o Paulo, queixando-se que o problema era ele andar com outras mulheres e ainda por cima bater nela e no filho de ambos, era aquilo que ela me contava sempre”.

Segundo João Romero, “a preocupação da Lili [Liliana] era não darmos cabo do carro do marido, mas deu-nos o código do cartão de multibanco dele, para levantarmos todo o dinheiro da conta, o que fizemos, pensando que o Paulo tinha morrido, ao atirar-se do carro, mas afinal viemos logo a saber que devia ter escapado, pois quando íamos fazer o terceiro levantamento, a conta já estava bloqueada”.

“Pedimos emprestado o Ford Focus da Bruna e o Renault Clio da Sónia, para seguir o Paulo, mas depois usamos a carrinha Peugeot 307, a do Paulo, depois de o obrigamos a sair, dando-lhe uma coronhada com a espingarda que levávamos e usando uma soqueira, já que o Renault Clio entretanto avariou”, referiu João Romero, dizendo que “o ‘Ricardo Espanhol’ não fazia parte do grupo que raptou”.

Vítima não acredita ter sido a mulher

Mas o homem cuja esposa terá encomendado o rapto, não acredita que a mulher o tenho feito, continuando a viver com ela, conforme afirmou durante o julgamento, no Palácio da Justiça de Braga, indo ao encontro das dúvidas que, durante quatro meses, até mesmo teve um procurador da República, que acabaria por acusar Liliana Alves, como sendo alegada mandatária do sequestro de Paulo Costa.

O grupo foi desmantelado por inspetores da Secção Regional de Combate ao Terrorismo e Banditismo, da Polícia Judiciária do Norte, sediada no Porto, que também recolheu bastantes indícios e imenso material probatório, relativamente ao fogo posto que destruiu por completo a carrinha Peugeot 307 da vítima nas imediações da Praia Fluvial de Cabanelas, em Vila Verde, para se apagar os vestígios.

Só que antes de terem regado o carro com gasolina e ateado as chamas, os raptores chamaram um comparsa, Ricardo Miguel Gonçalves Soares (“Ricardo Espanhol”), que terá desmantelado as melhores peças, por ter uma carrinha da mesma marca e modelo, Peugeot 307, estando agora este arguido a ser julgado à revelia, supostamente na Suíça, para onde fugiu antes da operação da PJ, em abril de 2021.

Os outros suspeitos foram todos detidos pela PJ, quando já estavam sob a mira da Esquadra de Investigação Criminal da PSP de Braga, mas as diligências pararam, quando face ao rapto, passou à alçada da Secção Regional de Combate ao Terrorismo e Banditismo, sendo ainda acusados de levantar logo 300 euros (em duas tranches) de uma caixa multibanco, em Mazagão, Braga, da conta da vítima.

Em abril de 2021, a Polícia Judiciária tinha abundantes indícios que comprometiam Liliana Alves, mas teve que avançar com a operação detendo todos os suspeitos, menos a principal, como mandante do crime de rapto, por o MP, através do procurador, Ricardo Tomás, do DIAP de Guimarães recusou à PJ solicitar detenção e buscas, ao juiz de instrução, Pedro Miguel Vieira, magistrado este que, ao contrário dos outros, na Comarca de Braga, vai sempre para o terreno com a PJ, tendo outra sensibilidade e mais competência.

Por isso, enquanto os principais elementos do grupo foram todos detidos, ainda em abril de 2021, a PJ só teve autorização para deter e buscar Liliana Alves, quatro meses depois, em agosto de 2021, tendo já apagado registos de telefonemas e mensagens do telemóvel, aquelas que a comprometiam, só que mesmo assim a PJ ainda conseguiu recuperá-las, salvando “in extremis” a investigação criminal.

Mulher nega mandar raptar marido

Liliana Alves nunca prestou declarações, quando mais tarde, por muitas insistências da PJ ao MP, foi detida, mas numa fase inicial, a agora arguida, então ainda como testemunha, nunca admitiu sequer qualquer tipo de envolvimento seu no rapto do marido, tendo todos os arguidos que prestaram declarações já no julgamento reiterado, com bastantes pormenores, que se entrecruzaram, ter sido aquela a mandante do sequestro de Paulo Costa, supostamente por ciúmes, ao descobrir que ele “contratava ‘putinhas’ através do instagram”.

Paulo Costa assumiu, perante o Tribunal Coletivo, ter feito contactos por essa rede social para contratar serviços sexuais, mas que não chegou a ter com ninguém, revelando ao mesmo tempo terem os raptores, durante o percurso inicial do sequestro, “criticando-o” por, alegadamente “falar com mulheres casadas”, o que no julgamento a vítima do rapto garantiu ser mentira, admitindo que desde logo a possibilidade de mesmo que traísse a mulher, nunca seria com mulheres casadas, por tal comportamento ser contra os seus princípios.

Vítima ainda vive com a alegada mandatária do crime

A vítima admitiu casos fora da relação conjugal, “mas nunca com mulheres que soubesse serem casadas”, referindo à juíza-presidente, a perguntas da magistrada, se não tinha conhecimento que também a esposa manteria um relacionamento, com o principal executante do rapto, João Romero, de 23 anos, um dos dois arguidos em prisão preventiva neste processo, respondendo também “não acreditar”, razão pela qual nunca deixou sequer de residir com Liliana Filipa Moura de Carvalho Alves, num apartamento da cidade de Guimarães.

O principal executor do rapto, João Romero, explicou detalhadamente que depois de negar, acabaria por comandar o rapto, pelo que ia ganhar 1.200 euros, para depois distribuir pelos outros seis suspeitos, mas dinheiro que nunca recebeu, passando por isso a ameaçar a mulher da vítima, só tendo conseguido receber 100 euros por conta das despesas, tudo à margem do “prémio” que lhe teria prometido, confessando que por essa razão chegou a telefonar e a ameaçar várias vezes Liliana Alves, junto da casa da coarguida, em Guimarães.

João Romero, preso preventivamente no Estabelecimento Prisional de Braga, deu conta aos magistrados da vida que levou depois de ter passado pouco tempo pelo Exército, chegando a fazer parte de um de dois casais que viviam todos numa garagem, em Lamaçães, na cidade de Braga, gastando quase todo o dinheiro em droga graças aos furtos e a outros expedientes, deslocando-se em automóveis, a quem colocavam matrículas falsas, para se abastecerem de combustíveis sem pagarem, como quando foi ao Alentejo assaltar a mãe.

Acerca do rapto, que poderia ter causado a morte da vítima, João Romero, atualmente já com outros processos pendentes na Comarca de Braga, referindo-se às circunstâncias do sequestro, afirmou que “aquilo foi tudo às três pancadas”, dizendo “não haver chefes neste grupo”, mas acabando por reconhecer “ser eu a ter a voz de comando”, durante os meses em que os dois casais viviam numa garagem.

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