Braga

Gerês este ano “às moscas”. Terras de Bouro arrisca-se a deixar de ser “el dorado”

Partilhe esta notícia!

O reduzido número de turistas que está a afetar o Gerês este ano, especialmente no concelho de Terras de Bouro, em pleno verão, cuja época estival já vai a meio, está a desesperar os operadores económicos, até por a crise verificar-se sobretudo com acentuadas baixas de clientes nas unidades hoteleiras e no setor da restauração, nas freguesias de Rio Caldo, Vilar da Veiga, Campo do Gerês e Covide, com destaque para a vila termal do Gerês, havendo comerciantes que até meados de julho não alugaram ainda sequer um único quarto.

Gerês desespera com falta de turistas em pleno verão

Embora abertamente ninguém queira pronunciar a palavra crise, entre tantas centenas de geresianos que vivem do turismo só no verão, a situação atual surpreendeu a grande maioria dos hoteleiros, mesmo tendo em conta que o “boom de 2020 e de 2021 nunca se repetiria depois da Covid-19, valendo até agora principalmente os grupos de brasileiros, mas também os de outras nacionalidades, para disfarçar a grande quebra de rendimentos, esperando-se pelos emigrantes, cujo mês de eleição para férias é em agosto, a fim de se salvar o ano.

Nas últimas semanas, o Semanário V foi auscultado comerciantes e turistas, nas diversas paragens pelo Gerês, quer durante a semana, quer aos sábados e domingos, sendo a explicação mais unânime que o grande decréscimo no Gerês se deve principalmente ao fim das restrições da pandemia mundial Covid-19 para quem viajava anteriormente rumo a outros destinos, como o Algarve, bem como para o estrangeiro, pois especialmente em 2020 mas ainda em 2021 os voos comerciais destinados a turismo estavam igualmente interditos.

No caso do Gerês há uma clara saturação dos turistas que gostando do ambiente de montanha, estão cansados de ver sempre as mesmas coisas, não se inova, não há animação permanente digna desse nome, os preços são caríssimos, o dobro daquilo que pagam ali ao lado, em Lobios, já em Espanha, onde chegam em poucos minutos depois da Fronteira da Portela do Homem, onde também há termas e as forasteiros não se sentem espoliados nas suas algibeiras, as tabelas de preços estão afixadas em todo o lado, onde é tudo feito às claras.

Mas há outras razões que se vêm acumulado, de concorrência desleal, para além de evasão fiscal como em poucos locais se vê, que é a coexistência de profissionais sérios com trapaceiros que vendem gato por lebre, explorando ao máximo a boa fé dos forasteiros, com preços exorbitantes de bens básicos, levando a que se chegue ao ponto de turistas irem comprar bens alimentares ao vizinho concelho de Vieira do Minho pois há casos em Terras de Bouro, que se paga o dobro, por exemplo, em garrafas de água, sendo “terra de água”.

A qualidade de muitos estabelecimentos hoteleiros, se assim se pode chamar-lhes, deixa muito a desejar, alguns não têm saneamento básico, despejando porcaria para pequenas estações de tratamento, que por sua vez levam resíduos para ribeiros que confluem com o rio Gerês ou diretamente para este leito e daí para o Cávado, conspurcando a Albufeira da Caniçada, onde motos de água desordenadas invadem impunemente a área dos banhistas, assistindo-se a mortes todos os anos, sem que ninguém faça nada de concreto para evitar.

Reinventar o turismo no Gerês

Algumas das pessoas contactados pelo Semanário V revelaram que a crise, se se poderá falar em crise, com o atual número dos turistas este ano de 2002 no Gerês, então essa crise veio mesmo para ficar, isto é, não é previsível um aumento de frequentadores nos próximos anos, enquanto não se reinventar o turismo no Gerês, quer dizer, não havendo uma mudança de paradigma entre os geresianos, porque desde há muitos séculos pouco mudou, os operadores turísticos limitam-se praticamente a esperar os forasteiros, pouco mais fazendo.

O principal problema, ninguém o duvide, que está na origem da debandada dos turistas, é que face à galopante inflação e consequente perda do poder de aquisição, na maioria dos casos os preços praticados na hotelaria e na restauração são muito altos relativamente aos outros locais alternativos, por exemplo nas zonas litorais, locais não só há campo, como mar, sendo mais fácil passar as férias onde as temperaturas habituais são em média menos dez graus centígrados que no interior, durante as vagas de calor, como o caso do Gerês.

This slideshow requires JavaScript.

No Gerês praticam-se geralmente preços desconformes com a qualidade, ou a falta dela, de pequenos hotéis e pensões construídos em cimento, levantam-se casas toscas, em vez de rústicas, desalinhadas entre si, com alumínio a mais e madeira a menos, “esquecendo” situar-se em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, único com tal estatuto em Portugal, que foi a primeira área protegida portuguesa, fazendo com cada vez mais haja turistas que só ali vão uma vez para nunca mais voltarem ou pelo menos para nunca mais pernoitarem.

Não basta ir para os colóquios de turismo dizendo ser necessário melhorar a qualificação dos recursos humanos, em Terras de Bouro, quando, afinal, são do conhecimento geral as situações em que muitas vezes nem sequer o salário mínimo se paga aos trabalhadores hoteleiros, quase todos sem contrato de trabalho e seguro profissional, ao mesmo tempo que se convidam jovens de fora para trabalhar nas férias desfrutando do Gerês e obrigando-os a trabalhar do nascer ao por do sol por quantias miseráveis e pernoitando em tugúrios.

Aliás, faz parte da história oficial da Vila do Gerês (Terras de Bouro), que nos primórdios da descoberta das caldas, eram arrendados por quantias exorbitantes currais de animais para ali pernoitarem aqueles que demandavam, necessitados de tratamento, até às águas geresianas, mas quem então escreveu esses e outros factos verídicos viu serem-lhe retirados os nomes da toponímia municipal, como sucedeu com o Parque Tude de Sousa, o antigo regente florestal, um dos homens que mais se dedicou ao Gerês com amor e obra feita.

Ou ao saudoso Lagrifa Mendes, fundador do Parque Nacional da Peneda-Gerês, que chegou a ser agredido, em Terras de Bouro, vindo a suicidar-se mais tarde, desgostoso, não só mas também, pelo vexame que passou, incompreendido por aqueles a quem só fazia bem, movidos pela ganância do dinheiro e habituados a só trabalharem no verão, muitos vivendo o resto do ano só de subsídios sociais: são estas e outras estórias que ainda estão por contar, mas serão brevemente publicadas em livro, para se conhecer o lado negro do Gerês.

Até a Cascata do Tahiti

A mesma situação ocorre também na chamada Cascata do Tahiti, que carateriza um outro tipo de turismo, diferente, este já pendular, em que os banhistas vão e vêm todos os dias, sendo um barómetro por excelência para aferir o movimento no Gerês, porque além de não ter qualquer custo financeiro, ao contrário da hotelaria e da restauração, não foi em julho incluído nas proibições de acesso a zonas florestais devido aos estados de contingência e de alerta, não faltando lugares de estacionamento, nem espaços de veraneio na penedia.

This slideshow requires JavaScript.

Se quisermos confirmar a baixa de frequência durante este ano na Cascata do Tahiti, de seu nome verdadeiro Cascata de Várzeas, na localidade de Fecha de Barjas, em Ermida, Vilar da Veiga, Terras de Bouro, basta referir que não há conhecimento de um único caso de alguém que se tenha aleijado naquela zona banhada pelo rio Arado, quando todos os anos, independentemente do “boom” derivado à pandemia mundial Covid-19, ocorriam ali sinistros praticamente todos os dias, alguns com gravidade, mas este não houve nenhum.

O mesmo se passa com as caminhadas realizadas sem guias ao longo da Serra do Gerês, escasseando os grupos que era habitual ver a deambular em toda a região, também se podendo aferir a baixa de turistas da natureza, se constatarmos que até ao dia 20 de julho, não havia conhecimento também de um único caso de turistas perdidos nas zonas montanhosas, quando neste período dos anos anteriores, eram muitas as situações, mas como nas cascatas, diminuindo drasticamente o número de turistas, felizmente os acidentes não ocorrem.

Mas no caso das cascatas geresianas, do Tahiti, do Homem, do Arado e da Rajada, só para referir as mais frequentadas, há uma outra situação que poderá explicar, a par da falta de dinheiro derivada da inflação e do exponencial do preço dos combustíveis, para quem se deslocava todos os dias entre a residência e os locais de veraneio, que é a grande diminuição dos caudais nos rios Homem e Arado, onde agora na maioria dos leitos os banhistas têm de se deitar, para a água cobrir todo o corpo, deixando as cascatas de ser tão atrativas.

“Cemitério” de turistas que assusta

Nos últimos anos, a zona de Terras de Bouro transformou-se numa espécie de “cemitério” de turistas, tendo falecido 12 pessoas desde o ano de 2012, quer na Albufeira da Caniçada, entre os Rios Cávado e do Gerês, quer ainda nas Cascatas do Tahiti, do Arado e da Portela do Homem, mas recuando aos anos imediatamente anteriores, em que não havia estatísticas, os números são muito mais negros, alguns dos quais eram “abafados”, supostamente, “para não prejudicar o turismo local”, temendo os autarcas a fuga de mais turistas.

Acidentes constantes fizeram “cemitério” de turistas

Não estão contabilizadas mortes sistematicamente, antes de 2012, mas os falecimentos eram mais do que muitos, até que a imprensa, contra ventos e marés, começou a divulgar casos graves, um dos quais de uma dupla morte, quando na Cascata do Tahiti um casal ali de férias teve uma morte trágica, em que a mulher escorregou e o marido tentou salvá-la, mas acabaram os dois mortos no fundo, caso ainda recordado em surdina, como o de um homem que caiu, à frente do filho, do Miradouro da Cacata do Arado, tendo morte imediata.

Os últimos anos têm sido marcados por muitos acidentes, alguns dos quais graves, mas quanto às mortes, nem todas estão devidamente contabilizadas, como sucede com as ocorridas na Albufeira da Caniçada, todas em Terras de Bouro (e não do lado de Vieira do Minho), devido afogamento, local onde tem havido mais casos mortais, nem sempre considerados para as estatísticas, por “conveniência”, pois aquele área fluvial faz parte integrante do Parque Nacional da Peneda-Gerês e daí o Plano de Ordenamento da Albufeira da Caniçada.

Quanto aos números oficiais, que todos os anos pecam por defeito, entre 2012 e 2016, em 2018 registaram três vítimas mortais, em 2019 uma morte, em 2020 três mortes e só em 2017 não houve casos mortais, números que totalizam os 12 falecimentos desde 2012, em cascatas e rios, verificando-se todos em Terras de Bouro, mais concretamente nas freguesias de Rio Caldo, de Vilar da Veiga e do Campo do Gerês, esperando-se que a redução tão acentuada este ano no Gerês contribua para minorar o número de tragédias na região.

Comentários

topo