Braga

Gerês. Cada vez mais gente rumo à Aldeia de Vilarinho da Furna (C/ Vídeo)

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A antiga aldeia serrana de Vilarinho da Furna, no coração do Gerês, afundada há meio século, tudo em nome do progresso para dar lugar à barragem sobre o rio Homem, tem este verão já à vista cerca de metade do seu casario, devido à seca, o que está a despertar o interesse de cada vez mais gente, demandando rumo ao empedrado, em especial aos fins de semana.

O rodopio verificado na tarde do último domingo, a par do aumento de visitantes, também já nos últimos dois dias, levou a proprietária do espaço envolvente fora de água, a Associação de Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna (AFURNA), a antecipar as portagens para esta quarta-feira, que até 15 de setembro passaram a ser diárias e não só aos fins de semana.

Os preços das portagens são os mesmos de há 20 anos, quando se iniciaram para moderar o acesso ao local, automóvel três euros, moto dois euros, bicicleta um euro e cada pessoa apeada 50 cêntimos, tendo desde hoje no parque de merendas um bar para apoio, que servirá também as três praias fluviais, de Arco da Mondeira, Portelada e Quinta do Padre Outeiro.

AFURNA já antecipou portagens para moderar os acessos © Semanário V

Segundo referiu ao Semanário V o presidente de AFURNA, Manuel de Azevedo Antunes, “temos muito gosto que a par das nossas praias fluviais, haja interesse acrescido com a aldeia de Vilarinho da Furna, mas impunha-se não permitirmos excesso de visitantes, para preservar o que resta das casas e das calçadas, além de não afetar o equilíbrio do ecossistema”.

O professor Manuel de Azevedo Antunes recordou “ser proibido, por força da legislação, andar de barco na Albufeira de Vilarinha da Furna, pelo que não será permitida a entrada de qualquer tipo de embarcação, inclusivamente dos pequenos botes de borracha e plástico, que furam nos ramos de árvores submersas, colocando assim em perigo os seus utilizadores”.

Antiga aldeia de Vilarinho da Furna, no Gerês, está cada vez mais visível © Semanário V

O desafio para não deixar que vilipendiassem Vilarinho da Furna, partiu de Manuel de Azevedo Antunes, sociólogo e professor universitário, o único dos habitantes da aldeia com ensino universitário, referindo ter sido submersa, em meados de fevereiro de 1971, mas nos últimos dias de 1970, as 57 famílias da localidade geresiana haviam levado os seus haveres.

Manuel de Azevedo Antunes, qual David Contra Golias, sozinho, com a sua irreverência, ainda em pleno Estado Novo, conseguiu sozinho enfrentar a toda poderosa companhia elétrica, retardando aquilo que era inevitável, mas o que permitiu uma saída mais digna e atempada da população, impondo, é o termo, um futuro Museu de Vilarinho da Furna, que obteve, podendo ser visitado durante todo o ano, na Porta de Entrada do Campo do Gerês, do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

O gado, meio século após, continua a apascentar em Vilarinho da Furna © Semanário V

Caso de estudo e doutoramento

Na ocasião em que a aldeia de Vilarinho da Furna se afundava, em 1971, uma longa-metragem de António Campos retratava a vida em Vilarinho da Furna, que em 1944 tinha motivado a tese de doutoramento de Jorge Dias, em Munique, publicando o trabalho em livro, com nota preliminar e prefácio de Orlando Ribeiro, o cancioneiro de Margot Dias, sua esposa, obra que foi igualmente valorizada com os desenhos de Fernando Galhano, um dos colaboradores de Jorge Dias.

A tese, intitulada “Vilarinho da Furna, um Povo Autárquico da Serra Amarela”, introduziu logo no meio académico as vivências daquele povo serrano, fruto da metodologia de observação participante, empreendida por Jorge Dias, tirando do anonimato uma povoação que era governada pelo juiz da terra, auxiliado por seis outros homens do povo, onde todos discutiam, geralmente era às quintas-feiras, todos os assuntos de toda a povoação e os das suas propriedades envolventes.

Já há quase um século e meio atrás, um célebre alemão, Link, que com o Conde Hoffmansegg, em 1778, visitou o Gerês, elogiou as riquezas etnográficas daquele povo, mas também o seu modo de vida e a qualidade da alimentação, bem como a limpeza dos lençóis da cama onde ficou hospedado, em Vilarinho da Furna, a par do asseio da população, no fundo de um vale fértil trespassado pelo rio Homem, entre as Serras Amarela e do Gerês, onde o trabalho foi sempre uma religião.

Escreveu aquele estudioso, Link, que “Vilarinho tem muitos habitantes ricos (…). Tivemos de nos hospedar em casa de um habitante muito abastado, que nos indicou o guia, por não haver estalagem (…). Os presuntos, o leite, a manteiga, eram bons e em abundância. Tivemos ocasião de ver que a numerosa família do nosso hospedeiro vivia bem e comodamente, que muitos camponeses alemães teriam motivo de invejar tal abastança. Prepararam-nos camas muito boas, com lençóis brancos e limpos. Não esperávamos [Conde Hoffmansegg] encontrar tais coisas numa casa daquelas”.

A aldeia de Vilarinho da Furna situava-se no extremo nordeste do concelho de Terras de Bouro, pertencendo à freguesia de São João do Campo, hoje designada Campo do Gerês, crendo-se que terá sido fundada, há cerca de dois milénios, por um grupo de sete trabalhadores da Geira Romana, que tendo-se fixado algures pela Portela do Homem, dissidiram, tendo quatro descido o curso do rio Homem, instalando-se desde então neste enclave mítico, entre as Serra Amarela e do Gerês.

Há cerca de meio século, “o êxodo do povo de Vilarinho pode localizar-se entre setembro de 1969 e outubro de 1970, quando na aldeia foram fixados os editais a marcar o tapamento da barragem”, como ensina Manuel de Azevedo Antunes, de acordo com o qual “de um ano dispuseram, pois, os habitantes de Vilarinho para fazer os seus planos, procurar novas terras e proceder à transferência dos seus móveis”, tendo sido aberto para esse efeito um estradão e que é o acesso atual.

António Barroso, o guardião de Vilarinho da Furna, desfiando memórias © Semanário V

O guardião de Vilarinho da Furna, António Barroso, referiu ao Semanário V que a Companhia Portuguesa de Eletricidade não acabou a tempo o estradão, pelo qual agora se processe a entrada dos visitantes às ruínas, pelo que “o juiz da aldeia tocou o chifre e mobilizou toda a gente, disse que tínhamos de terminar o estradão porque o tempo seria muito importante, já que iríamos pagar à horas pelas camionetas o transporte de todos os nossos haveres e se demorasse seria uma fortuna”.

“A Despedida a Vilarinho da Furna”

(Miguel Torga, Diário XI)

Gerês, 6 de Agosto de 1968 — Derradeira visita à aldeia de Vilarinho da Furna, em vésperas de ser alagada, como tantas da região. Primeiro, o Estado, através dos Serviços Florestais, espoliou estes povos pastoris do espaço montanhês de que necessitavam para manter os rebanhos, de onde tiravam o melhor da alimentação — o leite, o queijo e a carne — e alicerçavam a economia — a lã, as crias e as peles; depois, o super-Estado, o capitalismo, transformou-lhes as várzeas de cultivo em albufeiras — ponto final das suas possibilidades de vida. E assim, progressivamente, foram riscados do mapa alguns dos últimos núcleos comunitários do país. Conhecê-los, era rememorar todo um caminho penoso de esforço gregário do bicho antropóide, desde que ergueu as mãos do chão e chegou a pessoa, os instintos agressivos transformados paulatinamente em boas maneiras de trato e colaboração. Talvez que o testemunho de uma urbanidade tão dignamente conseguida, com a correspondente cultura que ela implica, não interesse a uma época que prefere convívios de arregimentação embrutecida e produtiva, e dispõe de meios rápidos e eficientes para os conseguir, desde a lavagem do cérebro aos campos de concentração. Mas eu ainda sou pela ordem voluntária no ócio e no trabalho, por uma disciplina cívica consentida e prestante, a que os heréticos chamam democracia de rosto humano. De maneira que gostava de ir de vez em quando até Vilarinho presenciar a harmonia social em pleno funcionamento, sem polícias fardados ou à paisana. Dava-me contentamento ver a lei moral a pulsar quente e consciente nos corações, e a entreajuda espontânea a produzir os seus frutos. Regressava de lá com um pouco mais de esperança nos outros e em mim.
Do esfacelamento interior que vai sofrer aquela gente, desenraizada no mundo, com todas as amarras afectivas cortadas, sem mortos no cemitério para chorar e lajes afeiçoadas aos pés para caminhar, já nem falo. Quem me entenderia?

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