Braga

Julgamento das bárbaras agressões cometidas na Praia de Adaúfe em Braga

Partilhe esta notícia!

Acusado por tentar matar namorada só depende de avaliação psiquiátrica

A continuação do julgamento do empresário cabo-verdiano que ia matando à pancada a sua namorada, alegadamente por ciúmes, na Praia Fluvial de Adaúfe, em Braga, está só dependente de relatórios médicos, psiquiátricos e psicológicos, ao arguido, para avaliar se é imputável, se tem imputabilidade diminuída ou se é inimputável criminalmente pelos seus atos, ter deixado quase às portas da morte a mulher com quem namorava, que garante ter visto fazer sexo com o melhor amigo.

Os três juízes da Instância Central Criminal de Braga aguardam que o Gabinete Médico Legal e Forense do Cávado, em Braga, remeta os documentos das perícias realizadas ao arguido, Amândio Vaz (“Tino”), para marcar a próxima audiência e após o que serão proferidas as alegações finais pelo Ministério Público e os dois advogados, de Acusação e de Defesa.

Amândio Faustino Furtado Mendes Vaz (“Tino”), de 34 anos, solteiro, natural da República de Cabo Verde, tem vindo a requerer, sucessivamente, a eventual libertação, mas todas as instâncias mantiveram a prisão preventiva, desde o Juízo de Instrução Criminal de Braga, ao Tribunal da Relação de Guimarães, passando pelo Supremo Tribunal de Justiça, que lhe indeferiu um pedido de “habeas corpus”, na base do qual o arguido invocava sofrer alegada prisão preventiva ilegal.

Vítima fez-se de morta só para não morrer

Segundo a acusação do Ministério Público, Amândio Vaz só não assassinou Socorro Amorim, conhecido por “Sol” entre os amigos, “por circunstâncias alheias à sua vontade”, tendo agido “com calma e total indiferença com que deixava a vítima, motivado por ciúmes, um motivo torpe, o que fez de forma livre, voluntária e consciente”, tudo isto “apesar de bem saber que tal conduta era proibida e punida por lei”, só que “não se abstendo de cometer esses atos”, já na madrugada de 4 para 5 de setembro de 2021, durante uma festa de aniversário, que teve lugar na Praia Fluvial de Adaúfe, em Braga.

Tal como o Semanário V reportou, a mulher fez-se de morta, só para não morrer, na Praia Fluvial de Adaúfe, em Braga, isto na tese do MP, segundo o qual “o arguido desde que em julho de 2021 começou a namorar com a vítima, “passou a ter um comportamento possessivo e ciumento com a vítima, exigindo que fosse submissa e que lhe obedecesse principalmente quando à frente dos seus amigos”, sendo que as agressões que configuram uma tentativa de homicídio agravado decorreram devido a ciúmes, quando durante os dias 4 e 5 de setembro de 2021 o então casal de namorados se juntou a uma festa de amigos, mas na madrugada do dia seguinte as coisas azedaram, tendo ficado mesmo descontroladas.

O aniversário de um dos amigos comuns foi o motivo para a festa junto à margem esquerda do rio Cávado, prolongando-se pela madrugada, sendo que a dada altura Socorro Amorim (“Sol”), começado a dançar com um amigo comum, Alex Júnio Alves Matos, o que, segundo o Ministério Público, “levou Amândio Vaz a mostrar desagrado com a situação”, mas o pior sucedeu quando “Tino” surpreendeu Socorro Amorim e Alex Matos a conversarem atrás das casas de banho da Praia Fluvial de Adaúfe, “mostrando-se desagradado com a situação”, o que já tinha acontecido quando os vira dançar.

“Já depois do arguido ter encetado uma discussão com a vítima, a determinada altura apertou-lhe o pescoço com força e arrastou-a até aquela bater com as costas numa cerca, enquanto lhe perguntava o que estava a fazer ali com o Alex Matos, momento em que a vítima reagiu e tentou libertar-se”, ainda segundo a acusação do Ministério Público, com base nas investigações criminais da Brigada de Homicídios da Polícia Judiciária de Braga, que deteve o empresário cabo-verdiano.

A acusação do MP refere que “a vítima explicou ao arguido apenas estarem a conversar, porém, o arguido disse-lhe que aquilo era uma traição, tendo com a mão fechada começado a esmurrar a vítima, até que aquela caiu no chão, mas ato seguido, o arguido agarrou-a pelos cabelos e começou a bater com a cabeça da vítima no chão, após o que, com ambas as mãos, agarrou novamente os cabelos da vítima e, levantando-a, de imediato atirou-a para o chão, com força, caindo em cima dela e em seguida desferiu-lhe, violentamente, vários socos na cabeça, nariz e boca, começando a vítima a engolir sangue”, segundo destaca igualmente na sua acusação pública a Procuradoria da República da Comarca de Braga.

“Tino”, continuando a agredir a então sua namorada, gritava-lhe insistentemente “vou-te matar”, enquanto, como afirma o Ministério Público, Socorro Amorim tentava fugir, implorando para não a matar, porque queria ver as filhas, sendo que quando ia gritar, “o arguido tapou-lhe a boca com terra e erva seca, fechando-lhe a boca à força, não a deixando respirar, desferindo-lhe ao mesmo tempo socos e cotoveladas, colocando-lhe depois um joelho na cabeça, momento em que a vítima pensou que iria morrer nesse instante” e “optou por se fingir de morta, nunca se mexendo e permanecendo sempre com os olhos fechados”, só desse modo tendo escapado a ser assassinada, segundo destaca o Ministério Público.

O MP refere que “nessa ocasião o arguido parou as agressões, ainda abanando com a cabeça da vítima, para confirmar se estava morta, levantou-se e pisou-lhe o rosto duas vezes, sem que a vítima tivesse reagido”, pelo que, ensanguentado, dirigiu-se mais adiante a Alex Júnio Alves Matos, o amigo comum que poucos minutos antes tinha surpreendido com a própria namorada, alegadamente em pleno ato sexual, no meio do milheiral, dizendo-lhe: “vai lá ver o que fiz com ela”.

“Atuou o arguido com calma e total indiferença”, salienta o MP, destacando “o desprezo pelo estado em que deixava a vítima, motivado por ciúmes”, o que, de acordo com o Código Penal, constitui “motivo torpe”, mas mesmo assim, diz o MP, “agiu sempre de forma livre, voluntária e consciente, bem sabendo que a sua conduta era proibida e punida por lei”.

Amândio Vaz (“Tino”) está a responder por um crime de homicídio qualificado na forma tentada, encontrando-se em prisão preventiva, na Cadeia Regional de Braga, sujeito a uma pena de prisão efetiva que oscila entre 12 e 25 anos, caso se provem no essencial os factos de que é acusado e a respetiva valoração jurídica, conforme estabelece o Código Penal.

Defesa diz que vítima quer o “Euromilhões”

Entretanto, a vítima, através do seu advogado, Daniel Silva Faria, pede uma indemnização de 160 mil euros ao antigo namorado, Amândio Vaz (“Tino”), que por sua vez já no julgamento negou sempre qualquer intenção de matar a vítima.

O advogado Daniel Silva Faria representa a vítima © Semanário V

Martins Rocha, advogado de Viana do Castelo, que defende o arguido, rejeitou liminarmente o montante do pedido de indemnização cível da vítima, considerando mesmo que ao peticionar tal verba, a ofendida “julga ter acertado no Euromilhões”, considerando ser essa quantia “exorbitante” e “manifestamente abusiva”, argumentando, entre mais razões, que a vítima, Socorro Franca Silva Amorim, “apenas precisou de quatro dias para o seu internamento hospitalar”.

Perspetiva completamente oposta tem o Ministério Público, referindo que a jovem brasileira só não morreu às mãos de “Tino”, residente em Maximinos, na cidade de Braga, à data namorado de Socorro Amorim, já que a vítima, depois de barbaramente agredida, se viu mesmo obrigada a fazer-se de morta, em desespero de causa, o que o arguido já desmentiu.

O empresário cabo-verdiano acusado rejeita a tentativa de homicídio da namorada, numa situação que ficou marcada pela “brutalidade sem precedentes” na agressão da vítima, manifestada por médicos, socorristas e polícias, tendo esse ato sido reconhecida pelo próprio arguido, que considerou o seu ato de “uma gravidade enorme”, mas “tive uma paragem cerebral e explodi quando a vi fazer sexo com o melhor amigo no meio do milho”.

O advogado Martins Rocha defende o arguido © Semanário V

Amândio Faustino Furtado Mendes Vaz (“Tino”), de 34 anos, solteiro, afirmou-se “muito arrependido” por deixar às portas da morte a então sua namorada, Socorro Franca Silva Amorim (“Sol”), de 43 anos, que entretanto regressou para o Brasil definitivamente, mas negou sempre a intenção de a assassinar, desmentindo mesmo que estivesse convencido que a tinha morto, quando depois disse aos amigos: “ide ver como ficou o corpo dela”, dirigindo-se ao então rival, Alex.

O amigo do casal, Alex Júnio Alves Matos, que se juntou ao casal a meio da festa, desmentiu que estivessem a manter relações sexuais com Socorro, mais conhecida como “Sol”, mas o arguido, “Tino”, que está desde então, o dia 5 de setembro de 2021, em prisão preventiva, afirmou ontem que “os surpreendi em pleno ato sexual e tive que os separar um para casa lado”, naquela madrugada, quando festejavam um aniversário do amigo, na Praia Fluvial de Adaúfe, em Braga.

“Tino” afirmou ter “perfeita noção da gravidade” dos seus atos mas sublinhou que “em momento algum quis tirar a vida” à então namorada, que muito menos anteriormente lhe teria infligido maus tratos, ou humilhando-a perante amigos comuns, afirmando mesmo que “ele até me elogiava perante os nossos amigos”, tendo negado que estivesse contra a ida para o Brasil de “Sol”, acrescentando que “a tinha ajudado com 500 euros para as despesas das viagens com familiares”.

“Tive uma paragem cerebral, sofri uma explosão”, referindo-se ao momento em que viu a namorada a ter relações sexuais com um amigo”, escondidos num campo de milho, explicando, face às insistências dos três juízes, que “ela estava para ali a gemer e tive de tocar neles, estavam colados um ao outro, estavam a fazer sexo, disso eu não tenho qualquer dúvida”.

Amândio Vaz admitiu que encetou uma discussão com a namorada, que os dois se envolveram em agressões e que acabou por “perder a cabeça”, porque, segundo reforçou, “o Alex era meu amigo e da minha namorada”, daí o seu “desespero”, porque segundo destacou o arguido, não era uma pessoa qualquer, era até o melhor amigo de ambos” conforme afirmou, “o Alex era uma pessoa que eu considerava amiga, era da minha mais inteira confiança, não poderia esperar aquilo dele”.

De acordo com a versão do arguido na barra do Tribunal Coletivo, “pouco antes, já a partir de outro local da festa onde a minha namorada se encontrava, enviou-me uma mensagem de telemóvel a dizer que queria ter relações sexuais comigo, fui com a ‘Sol’ para a casa de banho feminino, mas entretanto surgiu um grupo ruidoso e então desistimos de fazer sexo”.

Disse que agrediu a namorada com murros e, eventualmente, pontapés na cara, no peito e na cabeça, só tendo parado quando a viu com a cara “coberta de sangue”, pelo que “fiquei em pânico e saí dali a correr, para pedir auxílio”, tendo já durante o julgamento dito que “ela negou tudo aquilo que eu tinha visto, claramente, com os meus próprios olhos, disse até que eu é que tinha estado mal naquela noite, porque andava por ali com umas ‘putas’ e bateu-me logo contra o peito”.

Os factos remontam a 4 e 5 de setembro de 2021, quando o arguido e a namorada participavam numa festa de aniversário de um amigo, na Praia Fluvial de Adaúfe, em Braga, que incluiria a pernoita no local, com a modalidade de acampamento, tudo parecia decorrer normalmente, até que já na madrugada do dia seguinte, o arguido terá apanhado a namorada em flagrante a manter relações sexuais com o tal amigo que também participava na festa, costumando frequentar a sua casa.

“Aquilo para mim foi ver uma casa a desabar”, disse o arguido, manifestando-se incomodado e depois irritado com as sucessivas perguntas do magistrado do Ministério Público, acabando por recusar responder a algumas perguntas do MP.

Mas ao mesmo tempo “Tino” referiu “envergonhar-me daquele meu ato, que não condiz em nada com a minha educação e a postura habitual, tenho remorsos do que fiz e ainda hoje tenho dificuldades em dormir, peço-lhes desculpa e hoje em dia não guardo qualquer rancor nem quero mal relativamente à ‘Sol’ e ao Alex”.

Segundo a acusação, o arguido tinha um comportamento “possessivo e ciumento” para com a namorada, “exigindo que fosse submissa e que lhe obedecesse, principalmente à frente dos seus amigos” e na noite dos factos, e ainda segundo a acusação, o arguido, após ter visto a namorada com um amigo, apertou-lhe o pescoço, arrastou-a, agarrou-a pelos cabelos e começou a bater com cabeça da ofendida no chão.

Já com a vítima no chão, o arguido desferiu, “violentamente, vários socos na cabeça, nariz e boca e, nessa sequência, a ofendida começou a engolir sangue”, tendo a vítima tentado gritar várias vezes, “altura em que o arguido, pegou em terra e erva seca, encheu-lhe a boca com tais elementos e fechou-lhe, à força, a boca, impedindo-a de respirar”.

As agressões só pararam quando a vítima “optou por se fingir de morta, não se mexendo e permanecendo com os olhos fechados”, mas “mesmo assim, o arguido “ainda abanou a ofendida para confirmar se estava morta, levantou-se e pisou-lhe o rosto duas vezes, sem que a ofendida tivesse reagido”.

A ofendida perdeu os sentidos, mas durante todo o julgamento o arguido alegou que a vítima esteve sempre consciente, pedindo desculpas pelos seus atos e manifestando arrependimento, afirmando também que “o meu ato é de uma gravidade enorme”, mas negando, no entanto, qualquer comportamento possessivo em relação àquela que era então a sua namorada.

 

Comentários

topo