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Ucrânia: Guerra aumentou risco de desastre nuclear

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A guerra na Ucrânia aumentou o risco de um desastre nuclear e poderá atrasar a construção de centrais por empresas russas noutros países, caso as sanções económicas sejam alargadas a este setor, afirmou o especialista Mycle Schneider.

Coordenador do Relatório Anual sobre a Indústria Nuclear Mundial, cuja edição de 2022 foi hoje publicada, Schneider admitiu à agência Lusa que o conflito criou uma situação de risco.

“O mundo está visivelmente mais próximo de um desastre com uma central nuclear do que em qualquer ponto nas últimas décadas, porque a base das regras de segurança nuclear já não existe na Ucrânia”, vincou.

O analista alemão atualmente baseado em Paris destacou o caso da central nuclear ucraniana de Zaporijia, a maior da Europa, ocupada desde o início de março por tropas russas e localizada num dos territórios ucranianos oficialmente anexados por Moscovo.

O diretor-geral da central nuclear ucraniana de Zaporijia, Igor Murachov, foi detido por tropas russas durante vários dias, tendo sido libertado na segunda-feira.

“Não é preciso um perito nuclear para perceber que se o principal responsável de uma central nuclear for raptado e o restante pessoal operacional estiver a agir sob ameaça permanente, a probabilidade de falha de qualquer tipo dispara”, explicou.

De acordo com o relatório, as centrais não foram construídas para funcionar em situações de conflito, pois existe um risco agravado de o arrefecimento do núcleo do reator ou do combustível usado serem interrompidos, o que resultaria em “potencialmente grandes fugas de radioatividade”.

Além de um fornecimento fiável de água e eletricidade, o bom funcionamento implica “funcionários motivados, descansados e treinados” e o acesso de especialistas do exterior, peças sobressalentes e inspecções ou reparações.

Até agora, o setor nuclear foi isento das sanções económicas da comunidade internacional, mas Schneider referiu existirem vozes no Parlamento Europeu favoráveis ao alargamento.

As empresas russas, nomeadamente a Rosatom, dominam o mercado internacional, sendo responsáveis por todos os projetos de centrais no estrangeiro fora da China desde 2019.

Atualmente, a Rosatom é responsável por 17 unidades em sete países, incluíndo na Índia, Turquia ou China.

“As centrais nucleares russas contêm milhares de componentes não-russos, incluindo os principais, como turbinas (de origem francesa) ou partes do controlo-comando (da Alemanha). (…) Não há dúvida de que as consequências [de sanções] sobre os projectos de centrais nucleares russas em curso e potenciais projectos futuros serão substanciais”, disse Schneider à Lusa.

A invasão da Ucrânia também aumentou significativamente o foco de muitos governos na segurança energética e evidenciou os problemas de dependência das importações de combustíveis fósseis.

Porém, para Mycle Schneider, o interesse renovado na energia nuclear de vários países desencadeado pela guerra na Ucrânia para reforçar a segurança energética é “retórico”, pois as energias renováveis são mais baratas e rápidas de desenvolver.

“O interesse não produz energia. Não existe procura do consumidor para centrais nucleares, este é exclusivamente um mercado de oferta”, vincou.

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