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Jerónimo antecipou saída mas sai “tranquilo” e com o desejo de ver um PCP mais jovem

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O secretário-geral cessante do PCP confessou hoje que forçou a saída antecipada, mas sai de “consciência tranquila” ao final de quase 18 anos e deixou ‘pistas’ sobre o futuro do partido, que quer ver mais jovem.

“Disse ‘até amanhã’ ontem [sábado] no Comité Central, mas com a convicção de que vou de consciência tranquila porque saio como entro, no plano económico e financeiro, independentemente da atribuição de esta ou daquela subvenção, que não é para mim”, confidenciou Jerónimo de Sousa.

A conferência de imprensa na sede do partido, em Lisboa, era sobre as conclusões da reunião do Comité Central que antecede a Conferência Nacional do PCP, no próximo fim de semana, e apenas uma parte da intervenção do secretário-geral cessante estava reservada à sua saída.

Contudo, o assunto foi o único sobre o qual falou nos 45 minutos em que esteve a responder às questões dos jornalistas, na qual confessou que deixa a liderança do partido ao fim de quase duas décadas “de cabeça erguida” e a certeza de que procurou “fazer o melhor que sabia”.

Uma das marcas da liderança de Jerónimo de Sousa foi sempre a fuga, ainda que muito leve, à ortodoxia comunista. No início de setembro hesitou pela primeira vez quando foi questionado sobre a sua saída e em entrevista à Lusa há duas semanas antecipou a saída porque a “lei da vida não perdoa a ninguém”. “Os meus camaradas perdoar-me-ão, mas tive sempre esta ideia: ninguém é insubstituível”, referiu na altura.

“Ninguém é dono da sua saúde”, palavras do próprio, e a operação à carótida interna esquerda em janeiro foi apenas o primeiro de vários alertas que recebeu e que o levaram a deixar a meio o último mandato para o qual foi eleito, em novembro de 2020.

Na conferência de imprensa de hoje fugiu mais uma vez ‘ao guião’ e revelou que a escolha do “camarada estudioso” Paulo Raimundo – um dos únicos dirigentes comunistas que faz simultaneamente parte da Comissão Política e do Secretariado – provocou “alguma surpresa no Comité Central”.

E não foi consensual: “Em relação à solução quero dizer que houve uma ampla convergência, não quero dizer unanimidade porque o rigor dos números nesta matéria é importante, mas uma ampla convergência em relação à solução.”

Questionado sobre quem sugeriu o nome de Paulo Raimundo, Jerónimo de Sousa esquivou-se uma e outra vez, mas lá deixou passar mais uma ‘fuga’ e revelou que a proposta que vai ser votada daqui a uma semana pelo Comité Central “começou a ser trabalhada no Secretariado”, o órgão mais restrito da direção comunista, com apenas 10 elementos, entre os quais o próprio Jerónimo de Sousa, Paulo Raimundo e Francisco Lopes, um dos nomes que era apontado como possível sucessor.

O nome de Paulo Raimundo foi acompanhado pelos 25 elementos da Comissão Política, e no sábado foi apresentado aos 129 membros do Comité Central.

O órgão mais restrito do partido escolheu, assim, o elemento mais novo do Secretariado, com 46 anos (Margarida Botelho e Rui Braga têm a mesma idade, mas são mais velhos por pouco; os três são os únicos sub-50 naquele órgão).

Jerónimo de Sousa já tinha dito que não iria prescindir de participar na escolha e assim fez, aliando este processo a outra intenção que tem verbalizado nos últimos anos: o rejuvenescimento do partido.

Na conferência de imprensa destacou por várias vezes que Paulo Raimundo faz parte do quadrante mais jovem do partido e enquanto falou esteve ladeado por dois jovens dirigentes do partido centenário, Luís Silva (28 anos) e Inês Zuber (42 anos).

Nas intervenções que fez nos últimos meses, Jerónimo de Sousa insistiu na “força” da juventude. Esteve presente em várias iniciativas da JCP e nunca escondeu a felicidade de discursar para os mais novos “no combate” político. Aliás, uma das bandeiras do PCP para os próximos dois anos é a formação de mais 1.000 quadros do partido essencialmente jovens.

Na última intervenção que fez como secretário-geral no comício de encerramento da “Festa do Avante!”, em setembro, Jerónimo de Sousa falou ‘para dentro’ e para os jovens. Destacou a dedicação da juventude para construir a festa e colocou-os como centrais para a continuidade do partido que já tem 101 anos.

E voltou a referir este elemento como importante quando se referiu à constituição do grupo parlamentar. A entrada de Duarte Alves, de 31 anos, o número três nas listas por Lisboa, vai trazer um rejuvenescimento à bancada parlamentar depauperada nas últimas eleições legislativas.

Paulo Raimundo é o nome que no entender de Jerónimo de Sousa “responde às necessidades do momento” e não tem dúvidas de que “vai ser capaz de dar conta do recado”.

“Pertence a uma nova geração que só prestigia e garante ao partido o seu próprio futuro”, completou. O secretário-geral cessante confessou que, desfeita a surpresa, o anúncio da sua saída e a proposta para novo líder foram aplaudidas em pé durante quatro minutos na reunião do Comité Central de sábado.

A Conferência Nacional do PCP não estava pensada como um momento eletivo para o partido, mas como uma oportunidade para o partido se reenquadrar aos novos tempos – maioria absoluta do PS no parlamento, degradação das condições de vida dos portugueses e incerteza quanto à reorganização do panorama geopolítica internacional.
O mote é o de “tomar a iniciativa” e Jerónimo de Sousa utilizou-o para dizer que o reenquadramento do partido também tem de ser feito com um novo rosto na liderança. “Era o momento de tomar a iniciativa enquanto ainda temos capacidade” e dar lugar a outro que espera seja o rosto de um PCP revigorado.

Paulo Raimundo, o quarto secretário-geral do partido, em democracia, depois de Jerónimo, Carlos Carvalhas e Álvaro Cunhal, vai entrar em cena na quarta conferência que o partido faz em 100 anos de história.

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